Levantamento semanal do Banco Central aponta para índice de 5% no final de 2022. Já para este ano, conta aumentou pela 34ª semana seguida e foi a 10,15%

Pela primeira vez, o mercado passa a ver a inflação no teto da meta em 2022. Com a 19ª alta seguida, o relatório Focus, divulgado pelo Banco Central (BC) nesta segunda-feira (29/11), mostra a projeção da inflação em 5% para o ano que vem, exatamente o teto da meta.

Na semana passada, a projeção era de 4,6 %, mas o levantamento semanal, realizado com uma centena de economistas, subiu a conta em 0,04 ponto, chegando a 5%.

O BC tem como meta que a inflação fique em 3,5% no ano que vem, com um intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual (p.p) para cima ou para baixo. O piso é de 2% e o teto, 5%.

Para 2021, a projeção aumentou pela 34ª semana seguida e foi a 10,15%, aumento de 0,03% em relação a semana passada, bem acima do objetivo de 3,75% com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou menos.

Desde 1999, o Brasil teve a inflação acima do teto da meta em exatos 4 anos: 2001, 2002, 2003 e 2015. Com as estimativas do mercado em 10,12%, 2021 deve ser o quinto ano a fechar acima da meta estipulada.

Caso a inflação não atinja o valor dentro da meta, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, precisará enviar uma carta ao ministro da Economia, Paulo Guedes, para explicar as razões para o excedente e quais serão as medidas da autarquia para evitar que isso aconteça no próximo ano.

A alta constante da inflação vem seguida de expectativas de baixo crescimento para o país. Segundo o levantamento, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 4,78% este ano e 0,58% no próximo, de taxas de 4,80% e 0,70% esperadas antes.

Para o economista da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Felipe Queiroz, as projeções divulgadas pelo BC demonstram falta de controle sobre a economia. Segundo o especialista, o processo inflacionário chegou a essa situação de aumento contínuo por decisões econômicas e políticas equivocadas: “O governo vive em uma crise contínua, causada por declarações de seus próprios representantes. Isso faz com que as projeções e expectativas dos agentes econômicos em relação ao câmbio principalmente, se deteriorem, gerando uma fuga de capital.”

Na cotação atual, o dólar americano já custa R$ 5,60. Isso faz com que os produtores elevem o preço de suas mercadorias, piorando o cenário de inflação “ Com a taxa de câmbio desvalorizada, o produtor tem um incentivo muito maior a direcionar sua produção ao mercado externo. Logo ele ajusta o preço do produto no mercado local, ao preço do mercado externo.”, afirma Queiroz.

Para conter a inflação, o BC vem aumentando a taxa de juros, cada vez maior para os consumidores e empresas no Brasil. O economista da Unicamp julga a medida como equivocada, segundo ele, esse é um instrumento usado para a chamada “inflação de demanda”, que não seria o caso atual: “A inflação que estamos enfrentando no momento não é de demanda. Temos 14 milhões de desempregados, índice de miséria e fome aumentando também. Tudo isso corrobora que não estamos observando uma inflação de demanda, não temos demanda aquecida, temos demanda reprimida com falta de emprego. Quando o BC adota essa medida, consequentemente afeta ainda mais a capacidade de recuperação da economia do país.”

Carlos Alberto Ramos, economista da Universidade de Brasília, afirma que o aumento da inflação é um fenômeno mundial: “Mesmo em países europeus, temos a maior taxa de inflação em quase 30 anos. O problema no Brasil e outros países do mundo é deixar que essa inflação contamine sua economia, se tornando um problema estrutural, de longo prazo.”. Segundo Ramos, essa situação se agrava ainda mais no Brasil, devido ao real desvalorizado “No caso do Brasil temos a taxa de câmbio, com a desvalorização dela há grande impacto sobre os preços dos produtos.”

De acordo com Ramos, no momento é importante que as autoridades responsáveis acalmem os ânimos da população e mercado, demonstrando que o crescimento da inflação não deve se tornar uma realidade pelos próximos anos “O governo precisa mostrar que está comprometido a fazer com que essa inflação não seja permanente, e sim transitória. A sociedade não pode imaginar que esse período de inflação é permanente, porque vai aumentar o preço de produtos, aluguéis, de tudo. Então um problema que seria transitório, se torna permanente.”

Já Felipe Queiroz só vê um caminho possível: a mudança na política macroeconômica do Banco Central. ”Quando foi instituída autonomia operacional ao BC, colocou-se o Banco como instituição à parte da economia, que só olha para a inflação. Nesse sentido, teria que mudar o curso da política macroeconômica, porque o BC vai continuar adotando esse único instrumento, que se chama taxa de juros", defende.

*Estagiário sob a supervisão de Andreia Castro

CORREIO BRAZILIENSE

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