A decisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de indicar Fernando Haddad como seu substituto na corrida presidencial, após ter sua candidatura cassada pelo Tribunal Superior Eleitoral e seus recursos negados, foi tratada como esperado pela grande mídia: atacando e tentando desqualificar Haddad. Essa estratégia não é nova e já era esperada, já que essa mesma mídia fez a construção da narrativa do golpe de 2016 e condenou Lula, sem provas, antes mesmo de ser julgado.

Por Dayane Santos

 
No jornal O Globo, da família Marinho, os quatro colunistas se dedicaram a falar sobre a decisão que volta a movimentar o quadro eleitoral em desfavor dos interesses do consórcio da direita conservadora.

Elio Gaspari diz que “Haddad pesa igual à Dilma em 2010”. Ele se esquece de dizer que Dilma venceu as eleições em 2010 e voltou a vencer em 2014, sendo afastada por um impeachment sem crime de responsabilidade. E apesar de não admitir a realidade dos fatos, ele insiste na tese de que “o PT entrará na campanha com sua história e sua incapacidade de reconhecer erros”. 

Miriam Leitão, como sempre parcial, diz: “Haddad, candidato tutelado de uma cela”. Ela, que tem uma trajetória de vida marcada pela prisão durante a ditadura militar, usa a tese do cárcere para subliminarmente imputar a culpa ao ex-presidente Lula, que foi condenado sem provas e sem crime. 

O colunista do G1, Gerson Camarotti, dedicou sua coluna para dizer que a mudança na campanha do PT é uma “definição pragmática” que “esvazia o discurso da vitimização de Lula e do PT”. Mas essa tese ele não assume que é sua. Diz que foi “um parlamentar” que ele sequer aponta a qual vertente ou partido pertence.

“Nas palavras de um parlamentar, ao definir a substituição da chapa, o PT perdeu o discurso de que Lula era uma vítima da perseguição da Justiça. Isso porque ao lançar a candidatura do ex-prefeito Fernando Haddad, a legenda decidiu participar de um processo que, até então, era alvo de questionamentos do próprio PT”, afirma a coluna de Camarotti.

Já o jornal Folha de S. Paulo disse que “Haddad volta à disputa eleitoral sob a sombra do padrinho Lula”. De fato, Haddad está numa sombra e só falta a água de coco, afinal entrar no meio de uma eleição com a indicação e apoio do candidato líder em todas as pesquisas, mesmo estando preso há mais de cinco meses, e com um legado de governo que é o mais aprovado da história é muita sombra.



Estadão tentou esvaziar o ato realizado em Curitiba, que oficializou a substituição, e tratou de tentar insuflar a divisão do campo progressista, dizendo que Haddad virou alvo de Ciro.

No editorial, a narrativa do Estadão, bem como da maioria dos veículos, é desqualificar Haddad. “O candidato postiço”, diz o título do editorial que afirma que “nem é o caso de avaliar se Haddad é ou não competente para exercer a Presidência, pois sua campanha terá o único propósito de manter acesa a ofensiva lulopetista contra as instituições democráticas”.

A afirmação é porque Lula denunciou em sua carta ao povo brasileiro que a substituição na eleição foi por força das decisões judiciais que atropelaram seu direito político e violaram até a decisão do Comitê de Direitos Humanos da ONU.



“Há mais de cinco meses estou preso injustamente. Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando os procuradores da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro e o TRF-4 a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crimes que não praticou, por dinheiro que não desviou, por atos indeterminados”, rebateu Lula em sua carta.

Em outras duas matérias, o Estadão volta a construir a narrativa de que Haddad não tem chance de captar os votos de Lula. “Transferência de votos do PT fica estável”, diz um título de cabeça de página.

“Atentado contra Bolsonaro influenciou em pesquisa, diz analista”, aponta outra manchete em que o cientista político Kleber Carrilho, da Umesp, aponta um aumento das intenções de voto do presidenciável do PSL.

Mas no pé da matéria o jornalista pergunta: “Na sua opinião, qual seria um cenário provável de segundo turno?”. Eis que o cientista afirma categoricamente: “Haddad com Bolsonaro ou com Alckmin no segundo turno, mais provável Alckmin. As pessoas não estão notando que há muita emoção nesse processo. Por isso, ainda não acho que o Bolsonaro esteja garantido no segundo turno, como muitos pensam. A comoção que aconteceu por causa do atentado deu uma mexida grande, importante, porém não o coloca em uma posição tranquila. Imaginamos que a partir da comoção, não cresça mais. Já acho que é o ápice dele, enquanto Haddad e Alckmin ainda têm tempo de propaganda eleitoral para crescerem”.

A declaração do cientista evidencia porque a grande mídia está tão preocupada em desconstruir a imagem de Haddad e colocá-lo como um mero político submisso e na sombra de um grande líder que está encarcerado.

O colunista do Estadão, José Nêumanne, disse que Haddad passou de “estepe a poste de Lula”. Apesar de ter 1,83 metro de altura, Haddad está longe de ser um poste.

Na pesquisa Datafolha, divulgada na segunda (10), Jair Bolsonaro aparece com 24%, sendo que registrou 22% na anterior, ou seja, dentro da margem de erro, que é de 2% para mais ou para menos. Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad estão empatados tecnicamente. O candidato de Lula, contudo, teve o maior crescimento, isso antes do anúncio da substituição.

Ciro, que na pesquisa anterior, realizada em 20 e 21 de agosto, figurava com 10% das intenções de voto, cresceu para 13%; Marina recuou de 16% para 11%; Alckmin saiu de 9% para 10%; e Haddad foi de 4% para 9%. 

Trajetória

Nascido em 25 de janeiro de 1963, o segundo de três filhos de país comerciantes, Fernando Haddad tem origem libanesa e é filho de Khalid Haddad e Norma Thereza Goussain Haddad.

Com a decisão de Lula, Haddad entrou para a história como o candidato da resistência ao golpe jurídico-político que depôs uma presidenta legitimamente eleita, condenou e prendeu um ex-presidente sem provas, cassando o seu direito de ser candidato.

Formou-se bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) em 1985. Ele se especializou em Direito Civil, fez mestrado em Economia e doutorado em Filosofia também pela USP, onde é professor.

E foi na faculdade que Haddad iniciou a sua trajetória política, quando se filiou ao PT em 1983. Foi tesoureiro do Centro Acadêmico XI de Agosto, entidade dos estudantes do Largo São Francisco.

Em 2001, quando o PT venceu as eleições na Prefeitura de São Paulo, no governo de Marta Suplicy, ele ocupou a subsecretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico da cidade.

Dois anos mais tarde, foi para Brasília trabalhar como assessor especial do Ministério do Planejamento e Finanças na gestão Guido Mantega (2003-2004). Enquanto estava no cargo, foi convidado por Tarso Genro, então ministro da Educação, para ser secretário-executivo. 

Em 2005, com a saída de Tarso para comandar a presidência do PT, Haddad assumiu o ministério, ainda no governo Lula, e se mantendo no cargo durante o governo Dilma.

Antes disso, em 2004, Haddad apresentou a Lula um esboço do ProUni, programa que concede bolsas de estudo em universidades a alunos carentes. “Dei-lhe a missão de elaborar as Parcerias Público-Privadas e ele conseguiu entregar dentro do prazo um projeto difícil, que funciona bem até hoje”, contou Guido Mantega, então ministro do Planejamento.

“Tive a honra de ser ministro da Educação no governo Lula no melhor momento do país. Juntos, criamos Prouni, Fies e Sisu”, disse Haddad no programa da campanha veiculado nesta terça (11).

Ele deixou o ministério em novembro de 2011, quando foi lançado candidato do PT na corrida municipal em São Paulo, sendo eleito.

Ainda na propaganda exibida na TV, o narrador acrescenta que “trabalhadores pobres chegaram à universidade”.

“É por isso que o Lula apoia o Haddad”, diz o narrador que é endossado por um áudio gravado por Lula: “Não é à toa que o Haddad ficou sete anos no ministério”.

Essa gente tem é medo do que esse poste pode fazer. 

Do Portal Vermelho, 13 de setembro de 2018.