Renda do trabalhador com carteira assinada caiu para 92% da habitual em maio. Para autônomos e informais, queda foi para 60% e 76% do rendimento pré-pandemia, respectivamente.

Trabalhadores por conta própria foram os que mais perderam renda - Foto: Antonio Scarpinetti

Uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o impacto da pandemia no mercado de trabalho mostra que os rendimentos médios da população caíram para 82% da renda habitual em maio. Segundo a análise, os trabalhadores por conta própria e informais foram mais atingidos do que os trabalhadores com carteira assinada.

Os dados, divulgados nesta quinta-feira (2), baseiam-se na Pnad Covid-19 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o Ipea, os trabalhadores formais do setor privado receberam 92% da renda habitual em maio. Já a renda dos trabalhadores sem registro caiu para 76% da habitual. Os trabalhadores por conta própria foram mais afetados: receberam 60% da renda.

Entre outros setores mais duramente afetados estão trabalhadores de atividades artísticas, esportivas e recreação (receberam 55% da renda habitual), transporte de passageiros (receberam 57%), hospedagem (queda para 63%), serviços de alimentação (65% da renda de costume), atividades imobiliárias (70%), construção (71%) e serviço doméstico (74%).

Os trabalhadores menos afetados encontram-se na administração pública (redução para 97% da renda habitual), indústria extrativa (redução para92%), serviços de utilidade pública (93%), educação (92%), serviços financeiros (92%) e armazenamento, correios e serviços de entrega (91%). O impacto da pandemia foi maior nos rendimentos dos idosos (78%) e menor para os jovens (84%). No que diz respeito à escolaridade, os efeitos foram decrescentes – queda da renda para 75% da habitual até o ensino médio completo e para 85% para quem tem ensino superior.

Elo mais frágil

O sociólogo Clemente Ganz Lúcio, consultor na área do trabalho, destaca que, embora os trabalhadores formais estejam mais protegidos na pandemia, entre eles o funcionário menos especializado e de menor escolaridade é o elo mais frágil.

“A tendência entre os assalariados [com carteira assinada] é os de menor renda perderam mais rápido a ocupação. Em geral, são os trabalhadores que as empresas demitem primeiro, porque investiu menos na formação deles, são mais fáceis de substituir no futuro. Quando esse pessoal [com menores salários] sai da conta [da renda média dos trabalhadores formais], o valor sobe.”

Segundo o sociólogo, os trabalhadores sem registro e os autônomos foram atingidos mais fortemente, pela perda tanto de ocupação quanto de renda. “Além de perderem muito mais ocupações, quem ficou perdeu muito mais renda, porque a [demanda pela] prestação de serviço e a renda que ele conseguia fazer caiu”, ressalta.

Auxílio emergencial

O Ipea analisou também o impacto do auxílio emergencial na vida dos brasileiros. No mês de maio, cerca de 32% dos domicílios não apresentaram nenhuma renda no trabalho. De acordo com o estudo, 5,2% dos domicílios (cerca de 3,5 milhões) sobreviveram apenas com os rendimentos do auxílio emergencial.

“O auxílio foi mais efetivo para as famílias com renda mais baixa. Após receber o benefício, os rendimentos nestes domicílios atingiram 103% do que seriam com as rendas habituais”, afirma o economista Sandro Sacchet, autor da análise do Ipea. O benefício compensou cerca de 45% do impacto total da pandemia sobre a massa de rendimentos no país.

Vermelho