“Após ouvir os discursos de Bolsonaro e Nelson Teich na posse deste último, pareceu-me muito apropriada uma analogia dessa passagem da história do box com o atual momento que vivemos.”

Foto: Evaristo Sa/AFP

Na segunda década dos anos 80, no mundo do box, Myke Tyson parecia imbatível e surgia uma segunda estrela, Evander Holyfield. No Brasil tínhamos também o nosso astro, o grande Maguila , que havia ascendido ao seleto grupo dos 10 mais bem ranqueados do mundo e adquirido o direito de desafiar Holyfield em 1989.

Assim que a luta foi confirmada, Miguel de Oliveira, até então treinador de Maguila, foi substituído pelo veterano e renomado Angelo Dundee. Uma luta preparatória antecedendo o embate com Holyfield aconteceu cerca de três meses antes com um lutador pouco conhecido. Maguila venceu por pontos. Diante fraco desempenho do lutador brasileiro, Dundee foi questionado se Maguila estava preparado para enfrentar o americano. O treinador respondeu que confiava no punch, a potências do golpes, do seu lutador. Ao ouvir esta resposta, um comentarista esportivo afirmou que Dundee ou era um gênio ou era um louco.

No confronto em Las Vegas, logo no início do segundo round, em sua primeira investida, Hollyfield impõe um nocaute avassalador em Maguila. A luta mostrou não só que o americano era um lutador com técnica infinitamente superior, como também que o brasileiro foi para a luta mal preparado e sem nenhuma estratégia definida. A aposta de Dundee no punch de Maguila se mostrou um retumbante fracasso. A derrota foi humilhante.

Após ouvir os discursos de Bolsonaro e Nelson Teich na posse deste último, pareceu-me muito apropriada uma analogia dessa passagem da história do box com o atual momento que vivemos.

Em primeiro lugar, porque Bolsonaro coloca Teich no ringue para enfrentar um adversário avassalador, que em poucos dias levou a nocaute sistemas de saúde de nações como a Itália, Espanha, França e Inglaterra e coloca de joelhos a toda poderosa superpotência norte-americana.

No Brasil, após 50 dias do surgimento do primeiro infectado, graças às medidas de isolamento e distanciamento social adotadas pelos governadores e prefeitos, chegamos a pouco mais de 2 mil óbitos. Caso se mantenha a atual curva, o que depende de o sistema de saúde não colapsar, viraremos o mês com algo próximo de 15 mil mortes. No entanto, Manaus e Ceará já chegaram ao seu limite de capacidade de internação e São Paulo e Rio provavelmente atinjam o estrangulamento nesta semana. Isto nos leva a estimar que poderemos atingir o pico da contaminação com mais de 30 mil falecimentos e dependendo do prolongamento da crise hospitalar, chegar próximo aos 100 mil.

Segundo, porque como empresário sem nenhuma vivência com a gestão e saúde públicas, Teich sobe ao ringue contra este adversário infinitamente superior sem preparo e sem nenhuma estratégia de enfrentamento definida, difícil de ser construída com a situação prestes a se agravar exponencialmente. Vai para o enfrentamento confiando nas orientações de um chefe mais louco que Dundee, que confiou exclusivamente no punch de Maguila.

Não bastasse esta enorme desvantagem, o novo ministro sofrerá sabotagens dentro do próprio governo e de sua base aliada. Sabotagem de um Osmar Terra que está de olho no cargo, de um Lorenzoni que sonha em voltar a ser o braço direito de Bolsonaro, dos terraplanistas olavistas, entre outros. Ou seja, terá segundos sacaneando-o no próprio corner.

Isolado, Bolsonaro aprofunda o conflito com os governadores e com os poderes Executivo e Judiciário. E como Bolsonaro é Bolsonaro, quanto mais se isola, mais conduzirá seu governo para a beligerância, retirando qualquer possibilidade de que o Ministério da Saúde possa coordenar as ações de combate à epidemia.

Pior, o insano parece apostar no genocídio. A única estratégia que conhece é tentar jogar no colo dos outros os problemas que é incapaz de enfrentar, ao tempo em que tenta inflar a sua base de imbecilizados, como o fez em frente ao Quartel General do Exército neste último domingo. O problema nessa estratégia é que o primeiro a ser responsabilizado pela carnificina será exatamente o Ministro.

Diante desse quadro, o desastre epidêmico é inevitável e só não será maior se os governadores, junto com o Congresso Nacional, constituírem uma espécie de governo paralelo, para que haja uma mínima unidade de enfrentamento da crise.

A configuração política resultante pós pandemia é uma incógnita, mas é praticamente inevitável que Teich seja nocauteado ainda no primeiro round, daqui a poucos dias, perdendo o confronto de forma humilhante. Será inevitável, igualmente, que Bolsonaro pague bastante caro por essa derrota.

Vermelho