Bernie Sanders anunciou nesta quarta-feira (8) a desistência de concorrer à presidência dos EUA, deixando, no Partido Democrata, o caminho livre para Joseph “Joe” R. Biden Jr e a unidade contra Donald Trump na eleição deste ano.

Biden( à direita) passa a ter o apoio de Sanders na tentativa de derrotar Trump

A campanha de Bernie Sanders pela Casa Branca começou a ser notável há cinco anos, quando ele emergiu na disputa democrata, enfrentando Hillary Clinton. Tornou-se, desde então, o campeão dos direitos sociais (principalmente saúde e educação públicas) e da melhoria da renda dos trabalhadores, apresentando-se abertamente como um socialista democrático – e ajudando, assim, a “desdemonizar” a palavra “socialismo” entre o povo nos EUA. Moveu, dessa forma, grande parte do Partido Democrata à esquerda, apesar da grande maioria “moderada” entre os filiados e eleitores do partido.

O movimento que se organizou em torno de Sanders pretende uma mudança de fundo na política dos EUA, com o abandono ou a diminuição da forte influência neoliberal que marca democratas e republicanos, com seu dogma do “estado mínimo” e prevalecimento da lógica do mercado como forças dominantes. “Focar nessa nova visão para os EUA foi o objetivo da nossa campanha e o que de fato realizamos”, disse Sanders ao anunciar a desistência de sua candidatura. “Poucos negarão que, nos últimos cinco anos, nosso movimento tenha vencido a luta ideológica”, assegurou ele.

Com o aparecimento e crescimento da pandemia do coronavírus, teve que remodelar sua campanha. Enfrentou também uma série de derrotas ante Biden, que começou na Carolina do Sul em fevereiro e cresceu desde março, em estados cruciais como Michigan e Flórida.

Com a emergência da crise do coronavírus, sem poder fazer campanha pessoalmente, ele passou as últimas semanas praticamente à margem, divulgando sua candidatura do jeito que desse, com aparições ocasionais na televisão, e enfrentando apelos de outros democratas, mais moderados, para desistir da eleição e ajudar a unificação de forças em torno de Biden.
Sanders não conseguiu ampliar seu apoio entre os jovens, e sua candidatura também não cresceu entre o eleitorado negro, que é uma base vital do Partido Democrata. Sanders defendeu e popularizou políticas como “Medicare for all”, defendeu faculdades públicas gratuitas, e o aumento no salário mínimo, mas enfrentou oposição de muitos líderes do Partido Democrata, burocratas do partido, e grandes – e ricos -doadores de campanha, além do grande número de eleitores moderados, que o consideram muito à esquerda.

Sua saída da disputa é uma reviravolta numa campanha em que, há menos de dois meses, ele era o principal candidato, tendo terminado empatado pela primeira vez em Iowa e vencido em New Hampshire e Nevada.

Por meses, Sanders prometeu fazer tudo o que podia para derrotar Trump na eleição de novembro; sua saída, embora não seja o que ele havia imaginado, é um reconhecimento de que continuar a disputa contra Biden impediria a unidade necessária na disputa de novembro, contra Trump. Sanders, de 78 anos de idade, disse repetidamente que apoiaria Biden se ele fosse o candidato democrata.

Ele deixa a campanha depois de, tendo enfrentado grande parte da direção democrata, moveu muitas bases do partido para a esquerda, tendo inspirado o movimento progressista moderno com sua agenda política abrangente e sua mensagem apaixonada de que “os cuidados de saúde são um direito humano”, e eletrificado uma legião de apoiadores leais que abraçaram sua promessa de se voltar para aqueles que mais precisam. E mudou também a maneira como as campanhas democratas são financiadas, evitando doações dos muito ricos e, em vez disso, contando com um exército de doadores de poucos dólares.

Com o advento do coronavírus tudo indica, o momento se voltou para Biden, que o venceu facilmente em Michigan e, uma semana depois, voltou a ganhar em três grandes colégios, com grande número de delegados – Flórida, Illinois e Arizona.

Até então, o coronavírus atrapalhava o calendário político, forçando os estados a adiar suas primárias até junho. Sanders passou boa parte do tempo em casa em Burlington (Vermont, EUA) sem a presença de seus principais assessores para avaliar sua campanha. Até que, nesta quarta-feira (8), Bernie Sander se convenceu de que, nesta altura, seria melhor e mais produtivo, para suas idéias e o movimento que se formou em torno delas, se afastar da campanha, para unir os democratas em tornou do objetivo maior: derrotar Trump na eleição de novembro.


(*) Com informações do artigo “Bernie Sanders Drops Out of 2020 Democratic Race for President”, por Sydney Ember, “The New York Times”, 8 de abril de 2020

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