Regime voltará a ganhar força na próxima rodada de dificuldades presidenciais

Jair Bolsonaro participa de cerimônia de aniversário da Justiça Militar, em Brasília
Jair Bolsonaro participa de cerimônia de aniversário da Justiça Militar, em Brasília - Marcos Corrêa/Presidência da República

Com a pacificação arranjada entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia pôs-se fim, aparente, à crise. Mas voltou a circular uma hipótese que vai crescer na próxima rodada de dificuldades presidenciais. Trata-se da perene proposta de implantar o regime parlamentarista no Brasil.

Por enquanto, o sobe e desce da bolsa prejudica uns, mas favorece outros. Por exemplo, os que compraram ações na baixa para vender na alta. Se o bate-boca entre Executivo e Legislativo faz o dólar ficar mais caro, quem tem a moeda americana ganha (exportadores).

Em outras palavras, o despreparo do atual ocupante do Planalto ainda não ocasionou uma perda generalizada para os detentores de capital. Porém os sinais de que o eleito começa a ficar sem governabilidade se avolumam, causando preocupação de médio prazo entre os donos do dinheiro. 

1. Em três meses, o capitão reformado perdeu quase um terço do eleitorado que o apoiava, sobretudo na área popular. A sua aprovação caiu de 49% em janeiro para 34% em março. Em lugar de ocupar-se com uma estratégia que pudesse estancar a sangria de suporte entre o povo, o presidente dedica-se a postar tuítes doidos que só interessam à sua própria bolha ideológica.

2. Ao comprar briga com o único brasileiro que pode dar curso a um eventual pedido de impeachment (Maia), Bolsonaro mostrou não ter lido o manual básico do cargo que ocupa. Dilma Rousseff fez isso com o atual presidiário Eduardo Cunha e os dois caíram fora da Praça dos Três Poderes. Fernando Collor de Mello já tinha demonstrado, um quarto de século antes, que, na Constituição de 1988, o deputado que chefia a Câmara precisa ser tratado a pão de ló.

3. Em menos de cem dias, o vice-presidente Hamilton Mourão projetou a imagem de que, comparativamente, tem a cabeça no lugar, o que, convenhamos, foi fácil. Ter um vice, apoiado pelas Forças Armadas, que tenta e consegue se mostrar melhor que o chefe é receita certa para o esvaziamento do poder presidencial.  

O projeto parlamentarista tinha estado na origem da confabulação que acabou por levar Michel Temer ao Alvorada. Agora, renasce sob o signo do general da reserva que reside temporariamente no Jaburu. Comenta-se que o militar estaria disposto a encaminhar o assunto.

Tal como em 1960, a direita elegeu um populista autoritário e pouco confiável para impedir que o campo popular voltasse ao poder. Assim como naquela época, o parlamentarismo será a saída cogitada para contornar as crises que o Messias de turno provoca. Retirando, de passo, para sempre, o fantasma de uma Presidência popular e reformista do horizonte nacional. 

André Singer

Professor de ciência política da USP, ex-secretário de Imprensa da Presidência (2003-2007). É autor de “O Lulismo em Crise”.

Folha de S.Paulo