Há bons testes de sua convicção democrática que podem ser aplicados já hoje

A decisão de Sergio Moro de aceitar o Ministério da Justiça no governo do sujeito que só ganhou porque o Lula foi preso é, enfim, leiam essa frase de novo, e levem em conta que ela saiu nos principais jornais do mundo.

Moro no governo Bolsonaro trinca a imagem da Lava Jato e dificulta a vida de quem defendia a operação diante da esquerda.

Mas isso tudo é discussão pré-Bolsonaro.

Até o dia 28, estávamos preocupados com instituições, com partidos, com programas, com nossa imagem externa. Agora todos os cenários otimistas já sumiram no retrovisor, e sobrou a tarefa de conter isso aí até a eleição de 2022.

Há quem diga que Moro ministro poderia moderar Bolsonaro, e conter a escalada autoritária que o novo presidente evidentemente pretende iniciar em breve. Se for verdade, é o que importa em nossa situação atual, que é muito ruim.

Antes de discutirmos é provável que Moro modere Bolsonaro, é bom dizer que é possível.

Moro é mais popular que Bolsonaro, e Bolsonaro foi eleito surfando a onda da Lava Jato. Custaria muito, muito caro para Bolsonaro demitir Moro. O ex-juiz tem ampla margem para contrariar, frustrar ou ofender Bolsonaro antes de ser demitido.

Mas Moro quer controlar Bolsonaro?

Há bons testes de sua convicção democrática que podem ser aplicados já hoje. Aqui vão dois.

Moro é a favor da definição do crime de terrorismo como algo muito além do uso de violência contra a população civil com o objetivo de enfraquecer o moral de um inimigo militar? A discussão atual no Congresso, sob forte influência bolsonarista, tende a criminalizar qualquer tipo de oposição mais animada do que xingar o governo no chuveiro. Se Moro contiver esse surto autoritário, ponto para ele.

Moro concorda com o uso seletivo de verbas publicitárias públicas para punir jornais e TVs que denunciem escândalos do governo? O primeiro ato do governo Bolsonaro, lembrem-se, foi anunciar a suspensão das verbas para a Folha como punição pela denúncia de caixa 2 em sua campanha.

Em seu artigo famoso sobre a Operação Mãos Limpas, Moro enfatizou como denúncias da imprensa foram fundamentais para o sucesso (parcial) da operação. Se silenciar sobre a onda repressiva bolsonarista, Moro vai trair a imprensa livre. Os jornalistas devem temer que o apoio ao combate à corrupção se volte contra eles quando o justiceiro da hora já tiver se tornado ministro de um governo autoritário?

São dois testes, é fácil pensar em vários outros. Mas eu gostaria de ver Moro submeter-se a estes.
Não há dúvida de que o projeto autoritário de Bolsonaro venceu as eleições surfando na desmoralização da classe política pós-Lava Jato. Isso cria o risco real do saldo da operação para o Brasil ser muito, muito negativo.

Não há um número de políticos presos que seja suficiente para compensar a morte da democracia.
Com Bolsonaro, há o risco real de acontecer o que o cientista político Bruno Reis temia no início da operação: que a Lava Jato serre o galho em que está sentada –a política democrática brasileira.

O serrote está nas mãos de Moro. Cabe a ele decidir se continuará serrando, ou se preferirá cortar as asas de Bolsonaro. Só há essas duas opções, e o legado da Lava Jato será jogado nisso.

Os testes estão aí, Moro. Qual vai ser?

Celso Rocha de Barros

Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

Fonte: Folha de S.paulo,  de novembro de 2018.