Mercados abriram em tom mais otimista, mas reverteram sinais por volta de meio-dia

Anaïs Fernandes
SÃO PAULO

Após alívio temporário com dois pregões de baixa, o dólar voltou a subir nesta terça-feira (28) e se aproximou de R$ 4,15, em dia de viés negativo para países emergentes, agravado por um cenário eleitoral brasileiro que não sai da mira dos investidores.

O dólar comercial subiu 1,44%, para R$ 4,141, na terceiro maior cotação diária desde o Plano Real.

A diferença para os recordes é de casas decimais. Em setembro de 2015, a moeda foi a R$ 4,145, e fechou em R$ 4,166 em janeiro de 2016.

O dólar chegou a abrir esta segunda em baixa e atingiu R$ 4,065, mas o movimento não se sustentou e a divisa registrou R$ 4,148 na máxima do dia.

Na segunda-feira (27), o anúncio de um entendimento entre Estados Unidos e México para reformular o Nafta (Acordo de Livre-Comércio da América do Norte, na sigla em inglês) trouxe certo alívio ao mercado global ao apontar para um relaxamento na linha protecionista do governo americano de Donald Trump.

Com a sinalização, o dólar perdeu força pelo mundo, até mesmo ante o real, quando caiu 0,53%, para R$ 4,082.

Até o momento, porém, o acordo não inclui o outro parceiro de peso, o Canadá, e alguns analistas começam a apontar que os termos negociados ainda são preliminares e questionáveis.

Em relatório, o banco Goldman Sachs diz não ver efeito macroeconômico substancial nos EUA caso os termos revisados sejam implementados.

Um dos pontos destacados é que, na opinião de Alec Phillips, que assina o relatório, o acordo é mais restritivo do que o esperado em relação ao setor automotivo, atendendo mais aos interesses americanos do que aos mexicanos.

"O acordo é importante conforme mostra uma tolerância maior do governo americano. Trump está negociando, ainda que do jeito dele, e isso pode ser lido também como um sinal menos negativo para a guerra comercial com a China", diz Karel Luketic, analista-chefe da XP Investimentos.

Ele acrescenta, no entanto, que este "não é um acordo que vai resolver o mundo" e que as negociações entre Washington e Pequim estão estagnadas. "Provavelmente, ficarão para depois das eleições no Congresso americano, em novembro."

Com um investidor mais cético, moedas emergentes importantes não foram poupadas nesta segunda.

A lira turca, por exemplo, perdeu 2% ante o dólar, o peso argentino se desvalorizou 1,67% e o mexicano, 1,14%.

Analistas destacam ainda dados fortes relacionados ao consumo nos Estados Unidos, em mais um reforço do aquecimento da economia americana que poderia acelerar a alta de juros por lá.

"Essa alta [do dólar ante o real] está relacionada, do ponto de vista macroeconômico, com a melhora da confiança do consumidor nos EUA, que atingiu a máxima da série desde 2003 e sugere uma política monetária mais apertada pelo Fed [Federal Reserve, o BC americano]", escreveu André Perfeito, economista-chefe da Spinelli, em seu relatório.

Taxas de juros mais altas atraem fluxo de capital para a maior economia do mundo, fortalecendo o dólar.

Sem um cenário externo favorável, os mercados brasileiros acabam ficando mais vulneráveis a incertezas políticas internas, que continuam como pano de fundo.

Cleber Alessie Machado, operador na H. Commcor, observa que os ativos brasileiros estão bastante sensíveis, e o mercado, muito especulativo.

"Não houve um único gatilho específico. O que vemos é uma conjuntura volátil já há um tempo. Quando tem um alívio no exterior, como ontem, acaba havendo uma acomodação aqui. Se tem mau humor lá fora, no Brasil isso é potencializado. O investidor está muito arisco", diz.

O Ibovespa, índice que reúne as ações mais negociadas no Brasil, recuou 0,59%, para 77.473,18 pontos.

"O mercado está trabalhando na volatilidade em cima do cenário político, com movimentos pontuais e realizações muito no curto prazo", diz Marco Tulli Siqueira, gestor de operações Coinvalores.

A Bolsa brasileira descolou mais uma vez de Wall Street, que conseguiu se sustentar no azul.

Os índices S&P 500 e Nasdaq --que subiram 0,03% e 0,15%, respectivamente-- alcançaram máximas de fechamento pela terceira sessão consecutiva.

Segundo Jim Bell, chefe de investimento na Bell Investment Advisors, os "líderes de negócios" estão "irritados pelos desafios comerciais", mas confiantes de que o Canadá entrará na negociação do Nafta.

Com Reuters

Fonte: Folha de S.Paulo, 30 de agosto de 2018.