"A ética do trabalho deve ser repensada, e não apenas numa perspectiva teológica. Sabemos muito bem que existiu também uma ética secular, centrada na ideia de uma produção em benefício das massas, do orgulho pela inovação, da solidariedade de classe. Mas esses conceitos também pertencem a um mundo que já acabou", escreve Paolo Naso, sociólogo italiano da Comissão de Estudos da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália e professor da Universidade de Roma “La Sapienza”, em artigo publicado por Riforma – revista das igrejas Evangélica Batista Metodista e Valdense, 19-04-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Segundo ele, "talvez a ética de trabalho do futuro – também em chave cristã – deva partir disto: da ideia de justiça social, distributiva e ambiental".

Eis o artigo.

Muito pouco se sabe sobre Calvino – João, o reformador genebrino – na Itália e em geral, no imaginário de quem sabe situá-lo no tempo e na história do cristianismo, o seu pensamento se reporta a um tema específico: uma ética puritana, severa e rigorosa que se expressa, sobretudo, na dedicação ao trabalho. Grande parte dessa “ideia geral” se deve à mediação de Max Weber, autor do bem-sucedido ensaio – talvez mais citado do que lido – A ética protestante e o espírito do capitalismo. Há 120 anos, aquele livro deu forma sociológica ao nexo entre um pressuposto teológico - a graça de Deus - e as suas consequências no plano económico e social, a começar pela operosidade de quem descobria que a vida cristã também se podia expressar na dimensão intramundana do trabalho e das relações econômicas. Esquematizando, da escola dominical ao laboratório.

Apesar das revisitações e de algum revisionismo, essa tese manteve-se durante muito tempo, pelo menos na longa fase do capitalismo produtivo, aquele que, dentro dos sistemas de fábrica, gerava mercadorias e estruturava as classes sociais. Naquele contexto, a ética protestante se expressava numa particular atitude que, graças a uma força moral interna, através do trabalho conseguia melhorar os indivíduos e induzir um processo virtuoso de crescimento econômico de toda a sociedade. Essa clássica interpretação, correta em si mesma, porém subestima um elemento: aquela "força moral" que anima o calvinista trabalhador se expressa em um conceito teológico preciso: a vocação. O termo deve ser entendido numa chave que remete à vocação que o Senhor dirige aos seus filhos e às suas filhas.

Com essa passagem, como ressaltava outro sociólogo (e teólogo) que viveu entre os séculos XIX e XX, Ernst Troeltsch, o protestantismo reconciliou a dimensão secular do trabalho com aquela teocêntrica da graça: na esteira do pensamento da Reforma o dom divino da graça sola fide, somente pela fé, faz do trabalho mundano o "campo normal de ação" no qual se expressa a alegria pela graça recebida de Deus Nessa perspectiva, o trabalho não é mais uma condenação, portanto, nem a pena necessária para expiar a culpa do pecado original, mas o espaço de liberdade em que viver a fé cristã e afirmar a dignidade pessoal como indivíduos livres. Foi uma revolução do pensamento e da fé tão poderosa que desencadeou o processo econômico que bem conhecemos e que foi descrito, mesmo no exterior, por estudiosos do calibre de Talcott Parsons e C. Wright Mills. Para citar um nome italiano, devemos acrescentar Mario Miegge – este ano lembramos dez anos da morte desse filósofo de fé protestante, professor da Universidade de Ferrara - autor de um insuperável ensaio intitulado Vocazione e lavoro (Claudiana 2010).

Olhando para o trabalho de hoje, é necessário perguntar-nos o que resta dessa tradição e desse modelo e qual é a sua força motriz – se ainda a tiver – no plano das ideias e dos comportamentos individuais e coletivos. Isso foi discutido na conferência organizada pela Universidade de Salerno (Departamento de Ciências Políticas e Comunicação) e pela Federação das Igrejas evangélicas na Itália (Fcei), no campus Fisciano, de 7 a 9 de abril. Uma toca de ideias entre historiadores, teólogos, sociólogos que chegou numa resposta: a ética protestante do trabalho, entrelaçada de rigor, responsabilidade, empenho, a criatividade pertence a uma fase econômica que já foi definitivamente superada. Já a grande fábrica fordista, com seu caráter de alienação despersonalizante, havia trincado esse modelo, mas a progressiva desmaterialização do trabalho (e da produção) enterrou-o definitivamente.

Se a ética calvinista do trabalho interceptava um elevador social fortemente em subida, hoje qualquer ética do trabalho deve considerar a parcela de exploração, alienação e destruição de recursos ligada aos processos de produção. Além disso, os dados e as previsões mostram um elevador social parado, se não em queda livre, o que reduz as esperanças e as expectativas daqueles que procuram um trabalho para crescer socialmente. Fenômenos como o “trabalho pobre”, aquele dos jovens que desistem de procuram trabalho ou aqueles que sofrem a precariedade de cada emprego, não constroem nenhuma “ética” senão aquela da recusa ou da resignação. Que não tem – não pode ter – nenhuma dimensão teológica.

Em suma, a ética do trabalho deve ser repensada, e não apenas numa perspectiva teológica. Sabemos muito bem que existiu também uma ética secular, centrada na ideia de uma produção em benefício das massas, do orgulho pela inovação, da solidariedade de classe. Mas esses conceitos também pertencem a um mundo que já acabou.

Nesse campo, quase parece que diante de nós só restam problemas e desafios: aquele da justiça, da sustentabilidade, do “sentido” daquilo que fazemos para viver e para produzir os bens que, nós em primeiro lugar, necessitamos.

Não é o tempo de respostas fáceis e improvisadas, muito menos num tempo de decrescimento. Não sabemos se é mais ou menos feliz, mas certamente nos parece injusto porque a remoção de bens e o consumo acaba afetando apenas as classes mais pobres. Talvez a ética de trabalho do futuro – também em chave cristã – deva partir disto: da ideia de justiça social, distributiva e ambiental.

IHU-UNISINOS

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