Arthur Lira deixa a presidência da Câmara em fevereiro. Faltam nove meses. Até lá, vai assistir o poder escapando das suas mãos. Enquanto estiver no cargo, porém, pode perturbar muito aqueles que, em sua avaliação, atrapalham seu caminho rumo à planície e, especialmente, a condução do processo de escolha do sucessor. Os últimos dias mostraram que a lista de eventuais adversários pode ser extensa: inclui o presidente da República e alguns de seus auxiliares, além de ministros do Supremo. O deputado mostrou que faz política com o fígado.

Depois de qualificar o ministro Alexandre Padilha (Relações Institucionais) como desafeto, Lira ameaçou levar à votação em plenário projetos com potencial desastroso para o governo e, também, tirar da gaveta oito pedidos de CPI, algumas passíveis de causar confusão com o Judiciário — mais exatamente, STF e TSE. Até os aliados se surpreenderam com o que julgam ser exageros. Especialmente, porque uma das razões da fúria calculada do deputado foi a demissão de um primo da superintendência do Incra em Alagoas. Para amigos de Lira, ele se está se esforçando na reta final para sair menor do que entrou na presidência da Câmara.

Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, também cuida de seus interesses. A Comissão de Comissão e Justiça do Senado aprovou projeto dele que recria os quinquênios para juízes e promotores. O benefício pode ser estendido a outras categorias, como delegados, integrantes da AGU — inclusive nos estados —, além de aposentados e pensionistas. Se a PEC vingar (no plenário da Casa e na Câmara), pode representar uma despesa adicional de R$ 42 bilhões para o governo, diz a Fazenda. Na véspera, o senador, que mira o governo de Minas em 2026, conseguiu aprovar outro de seus projetos, a criminalização do porte de droga, em qualquer circunstância. Apesar da fama de conciliador, articulou e levou à votação o projeto que acaba com decisões monocráticas nos tribunais superiores, fonte de atrito com o Supremo.

Ministros do STF se movimentaram nesta semana para tentar uma trégua na atribulada e desarmônica relação entre os Poderes. Alguns jantaram com Lula. O presidente da Corte, Luís Roberto Barroso, conversou com Lira e deve ter encontro com Pacheco. Alexandre de Moraes fez visita ao Senado. Lula, do exterior, mandou auxiliares dizerem a Lira e a Pacheco que precisam conversar.

A disputa entre os Poderes — e internamente em cada um deles — mostra que falta algo na República, que está disfuncional. A coordenação política do governo tem falhado, e Lula não parece mais ter o poder de reduzir tensões, como em seus governos anteriores. Até aqui, ele vinha se apoiando em boas notícias na economia e em índices de popularidade bastante razoáveis. Ainda tem trunfos para exibir, mas o clima é de desorganização. Falta muito para 2026. O tempo da política, porém, nem sempre é o do calendário.

AUTORIA

Lydia Medeiros

LYDIA MEDEIROS Jornalista formada pela Universidade de Brasília, foi titular da coluna Poder em Jogo, em O Globo (2017-2018). Atuou ainda em veículos como O Globo, Folha de S.Paulo, Época e Correio Braziliense. Foi diretora da FSB Comunicações, onde coordenou o atendimento a corporações e atuou na definição de políticas de comunicação e gestão de imagem.

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