Setor volta a ter indicador positivo após três anos, mas, sem reformas, resultado é visto como 'ilusório'

Gustavo Carneiro/16-08-2017 - Indústria reivindica simplificação tributária, aumento de produtividade, melhor infraestrutura logística e maior qualificação da mão de obraIndústria reivindica simplificação tributária, aumento de produtividade, melhor
infraestrutura logística e maior qualificação da mão de obra
                           

A produção física da indústria brasileira aumentou em setembro e passou a acumular em 12 meses, pela primeira vez desde maior de 2014, um índice positivo em 0,4%, conforme a PIM (Pesquisa Industrial Mensal) divulgada na semana passada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O resultado é comemorado como o início da recuperação, mas é visto em entidades do setor como ilusório. Isso porque não foram promovidas mudanças que permitam um crescimento duradouro e sustentável.

Parte do receio se deve a um avanço pontual, e não generalizado. Somente oito dos 24 ramos pesquisados tiveram alta de agosto para setembro, de acordo com a PIM. Ainda, de acordo com a pesquisa Indicadores Industriais da CNI (Confederação Nacional da Indústria), o faturamento da indústria recuou 0,9% em setembro frente a agosto, no segundo mês consecutivo de queda no indicador. 

Questões como uma base de comparação muito depreciada pela crise dos últimos anos e um câmbio mais favorável a exportações ajudam a explicar o indicador positivo. Porém, estruturalmente, faltam soluções como simplificação tributária, aumento de produtividade, melhor infraestrutura logística e maior qualificação da mão de obra. 

Tanto que a CNI considera que o País tem perdido participação nas exportações de manufaturados, desde o pico de 0,82% do total comercializado entre países em 2005. O recuo foi de 0,24 ponto percentual até o 0,58% de 2015, último dado disponível pelo estudo Desempenho da Indústria no Mundo, divulgado na última terça-feira, 31, pela CNI, com base em estatísticas da OMC (Organização Mundial do Comércio). 

Apesar da ressalva de que a maioria dos parceiros comerciais brasileiros perderam espaço no mesmo período, com exceção de China, que aumentou 8,83 pontos percentuais, e Coreia do Sul, que ganhou 0,55, o diretor executivo de política econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, diz que o Brasil não acompanhou outros emergentes em aumento de produtividade. "Nossa perda de participação ainda foi aumentada pela crise que atingiu o setor industrial desde 2014." 

Castelo Branco considera que a agenda de redução do chamado Custo Brasil não foi colocada em prática e, mesmo com uma queda no gastos com produção nos últimos anos, não houve vantagem perceptível em termos de conquista de mercados. "Temos alguns bons sinais como a queda da inflação e dos juros, mas ainda precisamos atacar os custos e melhorar o ambiente de negócios." 

Para o economista Roberto Zurcher, da Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), essa pequena reação da produção 'não faz cócegas' nos indicadores de 2013, quando o setor teve seu pico na série histórica. "Estamos com números de dez anos atrás e uma recuperação mais rapidamente vai depender das reformas necessárias", cita. 

Zurcher afirma que mesmo com a deterioração dos indicadores ao longo dos anos, nada foi feito para corrigir a trajetória. "Não existe uma visão clara de que se tomou medidas para a indústria se recuperar. Esse movimento atual é mais inercial." 

Mesmo o câmbio mais favorável à exportação não é unanimidade para o economista da Fiep, porque impacta de formas diferentes, por exemplo, empresas que usam mais ou menos matéria-prima nacional. "Um dos setores mais importantes do País é o de alimentos e esse começa a reagir, muito porque o consumidor tem recuperado o poder de compra, o que deve atingir também o de vestuário", diz. "Se o corte da taxa de juros chegar mais rápido ao mercado, talvez isso chegue ao mercado de bens duráveis", completa. 

                            

REGIONAL 

A Fiep soltará nesta semana os indicadores industriais do Paraná e Zurcher afirma que, se a expectativa se confirmar, o Estado deve ter uma recuperação mais rápida do que o País. "Isso por conta da força do agronegócio, que beneficia a indústria de maquinário e de fertilizantes, por exemplo. São bons sinais, mas começamos a subir um degrau depois de cair dez", diz.

                             

Fonte: Folha de Londrina, 06 de novembro de 2017