Raquel Cavalcanti Ramos Machado


O exercício de votar é não apenas para que o indivíduo faça uma diferença no mundo, mas para que as causas sociais, as questões do mundo e os outros seres mobilizem o cidadão a sair de sua individualidade, ampliando a espessura do mundo social.

O distanciamento dos representantes e a aparente insignificância de uma só voz desmotivam muitos cidadãos a votarem. Para que votar se vou eleger um político que não atenderá a meus anseios e se meu voto não fará mesmo diferença? - pensam muitos.

Para tentar convencer à participação pode-se repetir o óbvio de que os que não gostam de política serão governados por aqueles que gostam. A política é onipresente, manifesta-se em tudo que agita a terra, e alcança até a intimidade. Mesmo alguém que decida se isolar em uma ilha deserta ou no meio de uma floresta, no mínimo, será afetado pela política ambiental adotada por algum país, referente à proteção da fauna e da flora do lugar. Dos direitos embrionários pré-vida aos sucessórios depois da morte, a política importa. Quando considerados os direitos sociais e as liberdades individuais, a relevância da política se torna mais evidente. Sociedades com graus variados de democracia e com formas diversas de realizar o Estado proporcionam qualidade de vida distinta a seus cidadãos, a depender do plano político que adotem. Assim, por maior que seja a aparente distância entre o anseio cívico e as políticas efetivamente implementadas, e ainda que os políticos pareçam inacessíveis ou pouco admiráveis, é somente por meio deles que se pode pensar em um projeto de sociedade no qual o indivíduo inevitavelmente se inserirá e poderá desenvolver bem seus projetos pessoais.

Mas essa percepção não afasta de pronto a ideia de que uma só voz ou um só voto parecem mesmo insignificantes. "A política pode até importar, mas outros já se ocupam dela, vou me dedicar a questões mais prazerosas, ou em que meu esforço conte mais" - é também um pensamento recorrente. Assim, trocar uma fila de votação por uma praia, ou por um almoço em família no dia da eleição parece mais atraente, com a preguiça pervertida pela alienação.

Em relação a esse aspecto, é preciso reconhecer que dificilmente as eleições serão decididas por um só voto. O ponto, porém, não é o voto em si, mas sua reverberação social. Além disso, tal como no paradoxo sorites, no qual se reflete sobre em que momento um monte de areia deixa de sê-lo com a remoção de grãos, fica o pensamento sobre em que momento a sociedade política deixa de sê-lo com a indiferença de cada cidadão. Quanto à reverberação social, não se pode ignorar que, muitas vezes, o voto é o último ato de um processo de diálogos, de troca ideias e de afetos com outras pessoas, já influenciadas por toda a cadeia que leva à escolha final. Um voto pode até não fazer diferença matemática, mas faz diferença comunicativa e social, na longa rede de conversas e debates sobre os temas que tangenciam a política.

Além disso, não votar pode trazer uma inquietude frustrada ao longo desse período. Mesmo os que não votam, dialogam sobre política nos diversos ambientes em que se inserem, e terminam por ansiar desaguar essa força comunicativa em algum canal institucional. O voto envolve, é certo, a escolha de representantes, mas a ultrapassa e se relaciona com a adesão a compromissos sociais. Os que votam se sentem mais à vontade para criticar, para se indignar quando não são atendidos. Quem não participa estará sempre à margem.

Mas há ainda um aspecto relevante e pouco explorado em relação ao ato de votar e de participar dos debates políticos de um modo geral. Trata-se do gesto de deslocar as atenções da vida para além da individualidade. Votar leva necessariamente a reflexões sobre o espaço público, sobre o outro. Votar, portanto, semeia, mais facilmente, o sentimento de solidariedade e empatia. Há um círculo virtuoso a ser desenvolvido. O ser humano interessa-se mais pelo que cuida, e cuida melhor daquilo pelo que se interessa, como um chamado da vida a atentar para uma realidade. O indivíduo que é encarregado de cultivar plantas e zelar por animais, por exemplo, tende a desenvolver um laço de cuidado maior com cada um desses seres. O afeto surge com a necessidade de atenção. Engajar-se com temas sociais tende a desenvolver cidadãos mais responsáveis pelo seu meio.

Diante do cenário de crescente apatia, tentar estimular o interesse pelo voto e pelo debate político pode parecer vão, mas a educação para a cidadania é capaz de surtir efeitos a longo prazo e é preciso apegar-se a ela como esperança para o cultivo das emoções políticas. Trata-se de uma espécie de educação para os sentimentos morais, tema bem enfrentado por Martha Nussbaum, para quem "as concepções das pessoas sobre o que devem a si mesmas e aos outros são na verdade muito fluidas, respondendo ao ensinamento social."1

O exercício de votar é não apenas para que o indivíduo faça uma diferença no mundo, mas para que as causas sociais, as questões do mundo e os outros seres mobilizem o cidadão a sair de sua individualidade, ampliando a espessura do mundo social.

A crescente apatia apenas gerará vazios de poder e de engajamento que serão ocupados por qualquer um não verdadeiramente desejado pela maioria, aumentando o mal-estar cívico cotidiano. É preciso parar, é preciso ser minimamente ator do palco da vida, através de um gesto que não custa tanto e impacta sensivelmente o humor e o rumo da sociedade. Vestir a vida com interesse político é, portanto, inevitável, ou através do voto e da participação ou através da sujeição.

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1 NUSSBAUM, Martha C. Fronteiras da Justiça. São Paulo: Martins Fontes, p. 505


Raquel Cavalcanti Ramos Machado
Mestre pela UFC, doutora pela Universidade de São Paulo. Professora de Direito Eleitoral e Teoria da Democracia. Membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político - ABRADEP, do ICEDE, da Comissão de Direito Eleitoral da OAB/CE e da Transparência Eleitoral Brasil.

https://www.migalhas.com.br/depeso/368661/algumas-reflexoes-sobre-apatia-e-engajamento-civico