País respondeu por somente 0,67% da riqueza global do ano de 2020, ao passo que em 2014 chegou a representar 1,04% de todos ativos mundiais (financeiros e não financeiros)

por Marcio Pochmann


A situação econômica do Brasil regride à figura de um galináceo toda vez que se submete ao receituário neoliberal. Na Era dos Fernandos (Collor, 1990-1992 e Cardoso, 1995-2002), por exemplo, o desempenho do conjunto das atividades econômicas ficou mundialmente conhecido por seu “voo de galinha”, sem conseguir imprimir o crescimento sustentado no tempo.

Ora a economia inflava um pouco, ora desinflava outro pouco. O resultado foi estagnação produtiva acompanhada de maior atraso tecnológico, perda de competitividade, paralisia da produtividade, desindustrialização, bem como de graves consequências para a maioria da população (desemprego, desigualdade, fome).

Com o intervalo da sequência neoliberal durante os governos do PT, o País voltou a recuperar parte do vigor econômico. Com isso, os ganhos de produtividade e de competitividade reapareceram, contando com a retomada da trajetória tecnológica associada aos avanços no padrão de bem-estar social (pleno emprego, redução da desigualdade, saída do mapa mundial da fome).

Desde a segunda metade da década de 2010, contudo, o neoliberalismo retornou à centralidade na agenda governamental. Imediatamente, a figura de um galináceo se estabeleceu como equivalência à situação da economia nacional. Raquítico, o desempenho dos últimos anos do conjunto das atividades econômicas não tem conseguido sequer vislumbrar “voo de galinha”, conforme experimentado na primeira experiência neoliberal dos anos de 1990.

Atualmente, o Brasil consegue somente “ciscar para trás”. Já são sete anos de contínua incapacidade de recuperar o nível de produção alcançado em 2014, cujas consequências negativas atingem praticamente todas as dimensões: anarquia nas contas públicas, abandono tecnológico, retardo acentuado na incorporação tecnológica, desemprego, desigualdade e fome.

Algumas das evidências disso podem ser constatadas no Relatório de Riqueza Global produzido pelo grupo financeiro Credit Suisse sediado em Zurique. Em 2020, por exemplo, o Brasil assumiu a terceira posição de país mais iníquo do mundo, segundo o índice Gini de desigualdade na distribuição da riqueza nacional (0,89) – o índice mede a desigualdade de renda, quanto mais próximo de 1,0, maior a desigualdade.

No ano de 2010, quando o Índice de Gini foi de 0,82 (8,5% maior que o de 2020), o Brasil ocupava a décima posição de país mais desigual do mundo. Se comparado com o Índice Gini de 2000 (0,85), quando o Brasil estava no oitavo posto de país mais iníquo do mundo, a queda na desigualdade na repartição da riqueza nacional entre 2000 e 2010 foi de 3,5%.

Para o Credit Suisse, o país respondeu por somente 0,67% da riqueza global do ano de 2020, ao passo que em 2014 chegou a representar 1,04% de todos ativos mundiais (financeiros e não financeiros). Em apenas seis anos, a presença brasileira na riqueza mundial declinou 35,6%.

No período de tempo anterior, o Brasil conseguiu multiplicar por 2,8 vezes a sua participação relativa na riqueza global. Entre 2002 e 2014, por exemplo, o peso do país na soma mundial dos ativos financeiros e não financeiros mundiais saltou de 0,37% para 1,04%.

Apesar disso, a quantidade de bilionários brasileiros permaneceu estável em 65 nos anos de 2014 e de 2021, conforme o ranking da Forbes sobre os bilionários do mundo. Nesse mesmo período de tempo, a riqueza média por adulto no Brasil decaiu 17,6%, pois passou de US$ 22,2 mil, em 2014, para US$ 18,3 mil, em 2020.

O mistério da prevalência da quantidade de bilionários, não obstante a queda na riqueza no Brasil decorre fundamentalmente de dois diferentes mecanismos.

O primeiro é associado à máquina financeira de valorização do estoque da velha riqueza, cada vez mais concentrada em poucas famílias proprietárias. No ano 2000, por exemplo, a composição da riqueza líquida podia ser dividida em menos de 40% pertencentes aos ativos financeiros e mais de 60% em ativos não financeiros. Duas décadas depois, a maior parte da riqueza do Brasil provém dos ativos financeiros.

Por isso, o papel fundamental do Banco Central Independente dos interesses da população: a dependência do Banco Central exposta à vontade popular colocaria em risco a melhor gestão financeira do estoque da velha riqueza pertencente aos maiores proprietários de ativos no país.

O segundo mecanismo resulta do papel do Estado em atuar favoravelmente aos ricos, privilegiados e poderosos. O funcionamento da República depende do sistema tributário que onera mais os pobres que os ricos proporcionalmente à renda, bem como a despesa pública se volta aos que menos precisam.

Esses mecanismos conformam, em síntese, os monopólios sociais por intermediação estatal que garantem a prevalência da desigualdade entre ricos e pobres, poderosos e fracos, privilegiados e desfavorecidos. Isso tem prevalecido no Brasil pelas atribuições do papel do Estado na garantia diferenciada da educação, saúde, previdência, entre outras políticas públicas ao conjunto da população.

Publicado orginalmente no OutrasPalavras

Disponível em: https://vermelho.org.br/2021/07/06/marcio-pochmann-e-a-galinha-neoliberal-ja-nem-voa/