A crise econômica, decorrente da pandemia da Covid-19, impactou profundamente o mercado de trabalho no mundo e poderá deixar 220 milhões de desempregados em 2021. A estimativa é do relatório “Perspectivas Sociais e do Emprego no Mundo: Tendências 2021”, da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O estudo indica que os trabalhadores vulneráveis, as mulheres e os jovens foram os mais atingidos pela crise, e que seus danos devem se estender até pelo menos 2023. 

A análise da entidade indica que, caso o cenário geral da pandemia não se agrave, a recuperação global deve ser acelerada na segunda metade de 2021. No entanto, esse processo será desigual, devido à diferença no acesso às vacinas e à capacidade limitada de grande parte das economias em desenvolvimento de apoiar fortes medidas de estímulo fiscal.

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Ainda que muito tímida, a melhora deve começar a ser percebida no próximo ano, com a estimativa de 205 milhões de pessoas desempregadas. O número segue superior ao alcançado em 2019, quando 187 milhões de trabalhadores ficaram sem emprego. Com exceção dos dados relativos ao período da pandemia, a taxa esteve tão alta pela última vez em 2013. 

O déficit de empregos, que alcançará 75 milhões em 2021, também deve diminuir no próximo ano, chegando a 23 milhões. O mesmo deve acontecer com o déficit correspondente em horas de trabalho, que inclui as perdas de postos de trabalho e a redução de horas de trabalho: a taxa equivale a 100 milhões de empregos em tempo integral em 2021 e, no próximo ano, a 26 milhões.

Para Guy Ryder, diretor-geral da OIT, a recuperação da Covid-19 vai além da questão de saúde, sendo diretamente ligada à superação das demais consequências sofridas pela sociedade. “Sem um esforço deliberado para acelerar a criação de empregos decentes e apoiar os membros mais vulneráveis da sociedade e a recuperação dos setores econômicos mais duramente atingidos, os efeitos da pandemia poderiam prolongar-se por anos na forma de perda do potencial humano e econômico, e de maior pobreza e desigualdade”, afirmou. 

Aumento da pobreza 

A América Latina, o Caribe, a Europa e a Ásia Central foram as áreas mais afetadas pela crise do coronavírus no primeiro semestre de 2021, de acordo com a OIT. Como consequência do desemprego, houve redução drástica de renda de trabalho, o que gerou aumento da pobreza. Comparando com 2019, 108 milhões a mais de trabalhadores passaram a viver na pobreza ou na extrema pobreza - eles ou suas famílias agora vivem com menos de US$ 3,20 (cerca de R$ 16,5) por pessoa por dia.

Isso afeta diretamente a meta do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU de acabar com a pobreza até 2030. Segundo o relatório, “os cinco anos de progresso para a erradicação da pobreza laboral foram perdidos”.

Maiores vítimas da crise no mundo do trabalho

Os trabalhadores vulneráveis estão entre os mais duramente atingidos pelos danos da pandemia no mundo do trabalho, o que também acentua as desigualdades existentes. Com a falta de proteção social, que toca cerca de dois bilhões de trabalhadores informais, por exemplo, a crise impacta de forma agressiva a renda e os meios de subsistência das famílias.

As mulheres também foram afetadas: no ano passado, a retração do emprego feminino foi de 5%, em comparação com 3,9% do emprego masculino. Houve aumento também do percentual de trabalhadoras que passaram à inatividade. O estudo sugere, ainda, aumento do risco de “retorno à tradicionalização”, em respeito aos papéis de gênero, devido ao crescimento das responsabilidades domésticas e do confinamento na pandemia.

Outro grupo fortemente atingido pela crise foi o de jovens, com queda de 8,7% em 2020, em comparação com 3,7% do emprego de adultos. A diminuição foi maior em países com renda média. De acordo com o relatório, o atraso e os problemas nas primeiras experiências de emprego dos jovens podem gerar consequências a longo prazo.

Recuperação

A OIT aponta como princípios das estratégias de recuperação, a promoção do crescimento econômico de base ampla e criação de empregos produtivos; o apoio à renda familiar e à transição do mercado de trabalho; o fortalecimento das bases institucionais, para haver crescimento e desenvolvimento econômicos inclusivos, sustentáveis e resilientes; e uso do diálogo social para ter os cidadãos como centro da ações pela retomada.

“Precisamos de uma estratégia abrangente e coordenada, baseada em políticas centradas nas pessoas e respaldada por ação e financiamento. Não pode haver recuperação real sem a recuperação de empregos decentes”, disse Guy Ryder.

Clique aqui para ler o relatório “Perspectivas Sociais e do Emprego no Mundo: Tendências 2021” na íntegra.
Fonte: ANAMATRA