Emir Sader - Só há duas interpretações sobre o Brasil de hoje: a do Lula e a da Lava Jato, ambas absolutamente contraditórias. Ou uma ou outra é verdadeira.

A Lava Jato é o instrumento fundamental da nova estratégia da direita internacional: a guerra híbrida. Esta se apoiou no monopólio privados dos meios de comunicação por parte da direita, em Congressos financiados pelas empresas privadas, mas, principalmente, pela utilização do Judiciário para a perseguição politica de lideres democráticos.

Essa operação promove uma reinterpretação da historia dos nossos países, centrada na denuncia da corrupção, inimigo contra quem concentram toda sua energia, recursos e atividades. O PT – conforme versão do Power point do Dallagnol e reiterada pelo Moro – se organizou para assaltar o governo e dilapidar seu patrimônio especialmente através das empresas estatais. Lula é a cabeça dessa monstruosa operação. Daí a utilização de todo tipo de manipulação das leis para condená-lo.

As políticas sócias eram simples cobertura para essa imensa operação de corrupção, que se valia do voto popular conquistado com recursos ilícitos. A história contemporânea do Brasil se resumiria a isso.

A Lava Jato foi instruída, junto a membros do Judiciário de outros países da região, por autoridades norte-americanas que, segundo revelou Wikileaks, não apenas instruiu sobre as formas de se valer das leis e das delações premiadas, para incriminar a líderes e forças democráticas, como também entregou informações recolhidas de forma ilegal a esse juízes. A espionagem do governo Obama nos telefones da Dilma, do ministério de minas e energia e da Petrobrás, recolheram ilegalmente informações, que foram entregues diretamente a Sérgio Moro, para que ele levasse a cabo os processos contra a Petrobrás.

Ao mesmo tempo que, com o apoio da mídia, a Lava Jato foi tratando de impor uma reinterpretação o país. O PT, de partido que promovia o resgate social do país, passou a ser um partido essencialmente vinculado à corrupção. Lula, de maior líder popular da história do país, passou a ser o chefe desses processos de corrupção levados a cabo pelos governos do PT. Era preciso acusá-los, sujar sua imagem publica através da mídia, prender, acusar e condenar, para mostrar como a Lava Jato combatia de forma implacável a corrupção no país.

Estava reescrita a história do país, fechado o período de governos do PT como um episodio mais da corrupção de governos no Brasil. Lula preso e condenado, o PT proibido como partido, a direita livre para governar sem concorrentes.

Mas essa versão encontro no Lula seu obstáculo maior. Não puderam leva-lo preso quando entraram na sua casa, sem ordem judicial, para conduzi-lo a Curitiba, destrocar sua imagem, sem deixa-lo falar. Lula amanheceu como preso politico, terminou o dia com 10 minutos no Jornal Nacional, dando sua versão da perseguição que sofria.

Lula retomou as Caravanas por todo o Brasil, retomou seu discurso, seu contato direto com o povo. Quando terminaram de montar a armadilha para levá-lo preso a Curitiba, a imagem do Lula estava plenamente reatualizada na cabeça das pessoas, a memoria do seu governo, das suas posições politicas.

A interpretação do Brasil realmente existente é a do Lula. Ela nasce da desigualdade e da exclusão social, da fome e da miséria, como os problemas fundamentais do país. Seu objetivo inicial de governo era simplesmente que todos os brasileiros pudessem comer três vezes ao dia, terminando com a fome.

Seu governo promoveu o maior processo de distribuição de renda, criando 22 milhões de empregos com carteira assinada e elevou o salário mínimo 70% acima da inflação. Desenvolveu políticas sociais complementares, que cuidaram de todos os brasileiros, terminando com o abandono no país. Lula ampliou como nunca o mercado interno de consumo popular, gerando demanda para investimentos que atendam essa demanda.

Lula ampliou como ninguém o sistema educacional no Brasil, fazendo chegar às zonas mais necessitadas universidades, escolas técnicas, institutos de ensino. Lula fez com que o Brasil deixasse de ser o país mais desigual do continente mais desigual, que deixasse de frequentar o Mapa da Fome mas, principalmente, fez do Brasil uma sociedade menos injusta, mais solidaria, de que os brasileiros deixaram de se envergonhar, para se orgulharem de ser brasileiros.

A visão que o Lula tem do Brasil se revelou a real, permitiu que ele pegasse os problemas brasileiros pela raiz e começasse o resgate do país. Isso era fatal para a direita, descolocada, derrotada quatro vezes seguidas. Daí o apelo ao golpe, sabiam que o próximo candidato seria o Lula e perderiam de novo.

Só essas duas visões do país se enfrentam, ou o país é um antro de corrupção e o PT e o Lula seus grandes responsáveis. Ou o Brasil é um país profundamente desigual pela ação das oligarquias dominantes. As revelações do Intercept e o desastre econômico e social produzido pelos governos neoliberais do Temer e do Bolsonaro, confirmam como Lula tem razão.

Derrotar e desmontar a Lava Jato não é apenas superar a maior injustiça política no Brasil, mas também terminar com a ação ilegal da Lava Jato, destruir as “verdades” que tentou impor ao país e recolocar as condições de um país democrático. Ou o Brasil da Lava Jato ou o Brasil do Lula: essas as opções que definem o futuro do país.

Emir Sader é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

Agência Sindical