A filiação do deputado federal Alexandre Frota ao PSDB, vergonhosamente comemorada como um “gol de placa” pelo governador paulista João Doria, tem efeitos mais simbólicos do que práticos. Afora sua expressiva votação nas eleições 2018, o parlamentar pouco agrega ao tucanato em termos político-eleitorais. Sua migração, no entanto, emite um recado cifrado do novo líder do PSDB ao presidente Jair Bolsonaro – de cujo partido, o PSL, Frota foi expulso na semana passada. 

Por André Cintra

Doria tenta se distanciar de Bolsonaro, não tão depressa que pareça ingratidão à fase do voto ‘Bolsodoria’, mas lentamente a fim de manter laços administrativosDoria tenta se distanciar de Bolsonaro, não tão depressa que pareça ingratidão à fase do voto ‘Bolsodoria’, mas lentamente a fim de manter laços administrativos
“O embate entre ambos está contratado”, resume o professor do Insper e cientista político Carlos Melo, em artigo publicado nesta quarta-feira (21) no jornal O Estado de S.Paulo. O horizonte é a disputa ao Palácio do Planalto em 2022, e a direita está em disputa. Tanto Doria quanto Bolsonaro já se firmam, com três anos de antecedência, como pré-candidatos à Presidência sem rivais em seus respectivos partidos. 

Quais forças cada um deles pode agregar para turbinar suas chances de êxito eleitoral? Segundo Melo, com o crescente “desgaste do governo federal”, é Doria quem “ocupa espaços e atrai aliados; conscientemente, o discurso enérgico e o antagonismo com o PT o colocam na disputa por um campo político hoje tomado por Jair Bolsonaro”. Mas a tática do tucano pode esbarrar em dois contratempos. 

“Após apelos e juras feitos a Bolsonaro no segundo turno da eleição estadual, Doria será bem recebido pelo eleitorado que, na disputa em 2018, se alinhou com o atual presidente? E, ao final, ‘rachar’ a direita não compreenderia somar zero com Bolsonaro e viabilizar o centro e a esquerda?” A crer nesse raciocínio, o governador precisaria apostar no fracasso – ainda que relativo – da gestão Bolsonaro e, ao mesmo tempo, construir sua trilha com (muito) mais habilidade do que costuma manifestar na cena política. 

A entrevista dada por Doria nesta terça-feira (20) ao lado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, anunciando a parceria PSDB-DEM, pode parecer um trunfo. Mas convém não esquecer que os dois partidos já caminham juntos em eleições presidenciais desde 1994 (a única exceção foi em 2002). Na última disputa, além de tucanos e demistas, a malfadada coligação encabeçada por Geraldo Alckmin reuniu, ainda, as siglas do Centrão – e, mesmo assim, naufragou.

A que serve, então, esse anúncio tão precoce de parceria entre DEM e PSDB? Na opinião de Carlos Melo, “uma aliança com esse desenho” daria a Doria “amplitude da direita para o centro, bem além do jardim bolsonarista. Nesta hipótese, Doria confinaria o presidente no gueto do extremismo, solapando o solo sob seus pés no terreno do antipetismo e da direita moderada”. Em outras palavras, o direitista Doria quer emparedar Bolsonaro na extrema-direita.

O futuro do PSDB

O problema, para Doria, é que mesmo esse campo “não extremado” da direita ainda não fecha inteiramente com seu nome. Um nome alternativo ao tucano é o do global Luciano Huck, que atrai simpatia de “setores de centro”, ávidos por “se organizar e obter autonomia”. Conforme lembra Carlos Melo, Doria tampouco é consenso “no próprio PSDB”, onde uma e outra liderança “não o digerem”. 

Em seu blog, Kennedy Alencar detalha justamente o impacto da movimentação de Doria no interior do tucanato. Para o jornalista, o “novo PSDB”, ao buscar “conquistar parcela do bolsonarismo hoje alojado no PSL (...), enterra de vez a ala tucana histórica e social-democrata e joga ainda mais o PSDB para a direita”. Perdas no itinerário são inevitáveis. 

Kennedy converge com Carlos Melo ao procurar deduzir as inclinações do eleitorado. “O bolsonarismo chegou ao poder quando seu público de extrema-direita atraiu uma parcela do centro político, esta mais inclinada à direita e também antipetista”, diz. “Há parlamentares insatisfeitos no PSL, especialmente com as atitudes autoritárias cada vez mais evidentes de Bolsonaro. Doria quer conquistar esses ‘moderados’ do bolsonarismo como Alexandre Frota, digamos assim. É uma forma de fortalecer o seu projeto presidencial para 2022.”

No meio do caminho daqui até a próxima eleição ao Planalto, haverá eleições municipais em 2020 – um teste preliminar para medir essas duas forças conservadoras. Kennedy escreve que, tanto numa eleição quanto noutra, “PSDB e DEM têm emitido sinais claros de que poderão montar uma aliança para enfrentar o bolsonarismo de extrema-direita”.

Doria se elegeu prefeito de São Paulo no primeiro turno em 2016, mas seu açodamento quase pôs em risco o largo favoritismo do PSDB, dois anos depois, na corrida ao Palácio dos Bandeirantes. A capital, seu suposto reduto após 16 meses à frente da administração municipal, foi justamente a cidade onde o tucano sofreu a derrota mais contundente para Márcio França (PSB) no segundo turno da eleição ao governo paulista.

Carlos Melo enxerga um Doria “menos afoito do que quando debutou na política”, agindo atualmente “com método e vagar”. Kennedy Alencar concorda: “Doria tenta se distanciar de Bolsonaro, não tão depressa que pareça ingratidão à fase do voto ‘Bolsodoria’, mas lentamente a fim de manter laços administrativos fundamentais entre o estado de São Paulo e a União”.

Aécio

Por fim, existe o fator Aécio Neves. A força que Doria demonstrou ao tomar de assalto o comando do PSDB não foi suficiente para coagir o ex-presidenciável tucano e acelerar seu afastamento do partido. É improvável que o empenho do diretório paulista do PSDB em expulsar Aécio se viabilize conforme o desejo e o cronograma de Doria.

O próprio pedido carece de mais credibilidade. “É hipocrisia, o tal falso moralismo tucano, porque Aécio hoje é um político insignificante, acusado de corrupção no caso da delação de Joesley Batista (2017)”, comenta Kennedy Alencar. “Quando Aécio presidiu o partido, tucanos paulistas e paulistanos não foram tão corajosos. Esse movimento para expulsar o mineiro faz parte desse ‘novo PSDB’, que tem uma feição algo bolsonarista para tentar colocar Doria na Presidência”. 

O “Painel”, seção de fofocas políticas da Folha de S.Paulo, também mostra que Doria terá dificuldades para se livrar de Aécio e deixar o PSDB a seu bel-prazer. Conforme a coluna, “aliados do mineiro prepararam um documento, assinado por 23 dos 29 integrantes da legenda na Câmara, contra ritos sumários ou sem lastro no estatuto. A peça não cita nomes, mas será entregue ao presidente do partido, Bruno Araújo”, que é preposto de Doria. 

Indiferente às pressões vindas de São Paulo, Aécio “tem dito a aliados que, na marra, não sai”. Com um passivo desse porte nas costas, os tucanos talvez nem precisem se constranger com a fanfarronice do “novo PSDB” em torno da filiação de Alexandre Frota.
Vermelho