Os últimos indicadores econômicos divulgados às vésperas de mais um 1º de Maio indicam que a luta será árdua e feroz contra os parasitas e saqueadores de sempre.

 
Por Marco Antonio Campanella*

Querem, como dizia Getúlio em sua Carta Testamento, um dos mais contundentes libelos em defesa da Pátria e dos trabalhadores produzido em todo século 20, nos transformar em escravos: não querem que o trabalhador seja livre, não querem que o povo seja independente...

Mais de meio século depois, os mecanismos de espoliação são outros e muito mais sofisticados. 
A economia real desaparece e é transportada para a tela dos computadores manipulados por rentistas de todas as matizes e gradações, em todas as partes do mundo, sedentos no lucro fácil, sem nenhum compromisso com a realidade das nações e dos povos. 

O Brasil, com Temer, e, agora, com Bolsonaro, vai a reboque dessa tendência financista que esmaga a indústria nacional, sufoca o comércio competitivo e coloca o Estado como vilão de todos os males.

Afinal, como disse um eminente ministro do STF, “o brasileiro está viciado em Estado”, ora bolas.
O brasileiro está viciado em educação pública, quando deveria recorrer às escolas privadas cada vez mais monopolizadas pelo setor financeiro, principalmente forâneo.

O brasileiro está viciado em saúde pública e no SUS, quando deveria socorrer-se na rede privada crescentemente concentrada e cara, como os medicamentos básicos e essenciais.
O brasileiro está viciado em segurança pública, quando deveria buscar a defesa de sua integridade física e de sua família nas empresas privadas especializadas.

O brasileiro está viciado nas aposentadorias e pensões públicas, depois de décadas de trabalho e contribuições, quando deveria depositar suas parcas poupanças nas seguradoras privadas sustentadas pelos bancos. 

Ora, a solução parece tão óbvia! Entreguemos ao “deus mercado”, cada vez mais cartelizado e oligopolizado, a solução dos problemas nacionais, como quer Guedes e os demais chicago-boys abrigados no desgoverno Bolsonaro.

A solução, ora a solução, está ao nosso alcance e parece que nós não queremos ver: basta vender o que resta da Petrobrás e da Eletrobrás, pois os leilões do Pré-Sal e de nossas usinas e outras reservas naturais ainda não foram suficientes para saciar o apetite inesgotável do mercado.
Não bastou a venda da Vale do Rio Doce na bacia das almas... Não bastou Mariana e Brumadinho... Essas tragédias que ceifaram milhares de vidas foram, para eles, insignificantes e não tem qualquer relação com as “privatizações” que acontecem desde Collor, FHC e Temer.
Não bastou a entrega da telefonia, esse mercado bilionário, às corporações estrangeiras que pouco ou nada investiram e transformaram nossos consumidores em reféns de seus serviços vertiginosamente precários com custos crescentes.

É preciso mais. Afinal, para que servem o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal destituídos de seu papel de indutor do desenvolvimento econômico e social? 
Mas, voltemos aos números que enriquecem o debate nessa data histórica.

Comecemos pelo desemprego, a maior chaga social da atualidade, cujos indicadores revelados na última semana pelo IPEA mostram números alarmantes: 13% de desempregados e 25% de subempregados, ou seja, 1 em cada quatro brasileiros da população economicamente ativa encontra-se sem trabalho formal ou subsistindo na informalidade, esse fenômeno impulsionado pelo desmonte da CLT, cujos patrocinadores prometeram milhões de empregos aguardados até hoje.
O mesmo IPEA apontou em sua pesquisa mais recente o recrudescimento da desigualdade social. Se, no quarto trimestre de 2014, a renda média domiciliar do trabalho nos lares mais ricos era 27,8 vezes maior que a média recebida pelas famílias da faixa de renda muito baixa, hoje, essa renda média domiciliar dos mais ricos foi 30,3 vezes maior que nos mais pobres. Aumenta a distância entre ricos e pobres e acentua-se uma concentração brutal no topo da pirâmide, com algumas poucas famílias, menos de 100, ostentando uma riqueza superior que a maioria da população. Um escárnio!

Um dado chama a atenção: no ano passado, quase 40% dos ganhos dos domicílios vieram da informalidade e de benefícios do governo, as aposentadorias e pensões que, agora, Bolsonaro e Guedes querem entregar para serem administradas pelos bancos e seguradoras privadas com o desmonte da Previdência Pública e Social. 

O quadro de desigualdades, certamente, será potencializado se a medida for aprovada, especialmente nas regiões mais pobres do Norte e Nordeste, onde a dependência com os benefícios sociais aproxima-se de 50% dos domicílios.

Todavia, a realidade dos bancos e rentistas de modo geral é bem diferente.
Levantamento baseado em dados do Banco Central e publicado pelo jornal Valor Econômico, na última semana, revela que, enquanto os brasileiros perdem emprego e renda e ficam cada vez mais empobrecidos, especialmente os trabalhadores mais pobres, e dependentes da informalidade e das formas precárias de trabalho impulsionadas desde o governo Temer com a lei das terceirizações e o desmonte da CLT (contratos intermitentes, temporários, etc.), os bancos de capital aberto, principalmente os privados, nacionais e internacionais, colecionam lucros bilionários cada vez mais estrondosos. 

Itaú, Unibanco, Bradesco, Santander e Banco do Brasil devem ter um lucro líquido recorrente de R$ 20,169 bilhões no primeiro trimestre de 2019, conforme projeções de analistas consultados pelo jornal. O resultado, se confirmado, será 16% superior ao obtido no mesmo período de 2018. Esses números, ainda segundo a publicação, devem refletir um desempenho ainda mais aquecido do crédito e o foco que os bancos passaram a dar nas operações com spreads mais elevados, o que significa dizer: mais encargos financeiros para os correntistas em geral, pessoas físicas e jurídicas. 

Trata-se de uma brutal e igualmente inédita transferência de renda das famílias, dos trabalhadores em geral e do setor produtivo para o setor financeiro, um indicador claro do nefasto processo de financeirização da economia nacional, seguindo a tendência mundial. 

Em relatório a clientes, analistas do UBS (banco suíço) não escondem a estratégia dos bancos, depois da última eleição presidencial, para saquear cada vez a economia real, priorizando as operações com pessoas físicas e pequenas empresas, especialmente nas que oferecem garantia real. Dizem eles: “Depois da eleição do presidente de centro-direita Jair Bolsonaro, a nova proposta de reforma da Previdência e os dados macro apontando para uma recuperação da economia, acreditamos que os bancos brasileiros entraram em um novo ciclo de crédito”.
O que não falta é dinheiro para a promoção desse assalto à renda das famílias e do setor produtivo. O estoque de crédito no país, que poderia representar um fator a induzir a retomada do crescimento econômico, cresceu 5,5% nos 12 meses até o fim do mês de fevereiro último, saltando para R$ 3,2 trilhões (dados do BC), sendo que as operações com pessoas físicas avançaram 9% (R% 1,8 trilhão), enquanto os empréstimos e financiamentos para pessoas jurídicas cresceram 1,4%, totalizando R$ 1,4 trilhão. 

Na outra ponta, a conspirar favoravelmente ao lucro dos bancos, houve uma redução, ainda que leve, do número de inadimplentes. De acordo com o UBS, a taxa de inadimplência nos quatro bancos principais deve ficar entre 2,9%, ante 3,2% em dezembro e 3,5% em março do ano passado. 

Resumo da ópera: o aumento do estoque de crédito não teve qualquer impacto no nível de emprego e de renda dos brasileiros, muito menos melhorou a situação das empresas, notadamente as pequenas e medias que continuam em crise, apenas endividou-os ainda mais, acentuando o lucro bilionário e nunca antes visto do setor financeiro (ver quadro). 



Nesse cenário, não resta outra alternativa senão o fortalecimento da unidade dos movimentos sociais e sindicais, bem como de todas as forças progressistas e democráticas da sociedade, pois o que, em última instância, está sob ameaça é a própria democracia, a soberania nacional e a dignidade do povo brasileiro. 

Os gestos de grandeza, coragem e heroísmo que não faltaram a gerações passadas que enfrentaram os golpes e as aves de rapina de sempre não faltarão agora, nessa hora grave!
Que o 1º de Maio represente mais um passo na luta contra a escravidão que querem impor aos nossos trabalhadores e contra a condição de colônia que pretendem novamente impingir ao nosso país!

Marco Antonio Campanella é jornalista e membro do Comitê Central do PCdoB