Em mais um "balão de ensaio", o mandatário diz que o Brasil desperdiça verbas em educação, e lança bases para uma campanha repressiva no setor.

Por Flávio Aguiar, na RBA

 
Steve Bannon desembarcou na Europa, e o desembarque já rende dividendos. Seu investimento maior no momento se concentra no partido Vox, da extrema-direita espanhola, que conseguiu unir-se, em frente, com os dois outros partidos de direita, o Popular e o Ciudadanos, tendo em vista as eleições nacionais previstas para 28 de abril.

O jornal El País, na edição de segunda-feira (4), revela que dirigentes do Vox se reuniram com Bannon para finar seus instrumentos de luta, em particular nas redes sociais. O Partido Socialista, segundo a reportagem, expediu pouco mais de 2 milhões de mensagens na rede, no último mês. O Vox, que não tem representação no Parlamento Nacional, ultrapassou os 3 milhões de mensagens.

A reportagem, referindo-se às campanhas de Trump e Bolsonaro, analisa os principais moldes de comportamento estas mensagens. São quatro: 1. "enquadrar" uma ideia, apresentado-a como original, sua; 2. desviar a atenção, encobrindo os fatos com cortinas de fumaça; 3. atacar a credibilidade dos adversários; 4. lançar balões de ensaio, para avaliar os resultados.

A nova campanha do presidente no campo da educação, depois dos fracassos de seu ministro com as mensagens sobre cantar o hino e repetir slogans da eleição de 2018, vai nesta direção. É uma tentativa de recuperar o terreno perdido pela inabilidade do ministro. Funcionará? É o balão de ensaio.

Nesta campanha, Bolsonaro argumenta que o Brasil desperdiça verbas na educação, gasta muito mais do que a media dos países ricos, mantendo posições baixas no Programa Internacional de Avaliação de Alunos, organizado pela OCDE. Aponta que o PT inchou os gastos em educação, sem resultados. Em 2003, o Brasil aplicava 30 bilhões de reais no setor; em 2016, 130 bi.

Promete então uma Lava Jato na educação (justo no momento em que desautorizou seu ministro da Justiça, forçando a desnomeação de reconhecida autoridade em segurança para Conselho do ministério). Diz que haverá resistência no setor, sugerindo que privilegiados ficarão descontentes, falando até em greves. Enfim, um manancial de falácias.

Bolsonaro pretende transformar um problema complexo em algo simplório. Por exemplo: os melhores desempenhos do Brasil nas áreas averiguadas nos exames feitos pela OCDE se deram em 2009. Oculta (esta é uma operação fundamental na estratégia) que o desempenho dos estudantes brasileiros é muito desigual entre os diferentes setores.

Em todos os campos, os melhores resultados são obtidos por estudantes da rede federal (ciências, leitura e matemática), que se igualam aos dos países desenvolvidos. Os da rede privada vêm em segundo lugar. Os piores resultados são dos estudantes das redes estaduais e municipais, ressalvando-se que os desta última rede ainda estão no nível de ensino fundamental.

O Brasil investe em educação 6,1% do PIB, enquanto a media dos países da OCDE é de 5,6%. Sim, mas… de 2003 em diante o número de estudantes nas redes fundamental e média no país cresceu enormemente, e elas são prioritariamente responsabilidade de governos estaduais e municipais. Além disto, na OCDE a media de gasto por aluno/ano é de 8.952 US$, enquanto no Brasil a média cai para 2.985 US$/ano.*

E apontam especialistas que o problema fundamental continua sendo a pouca valorização e formação deficiente dos profissionais da educação. 

Ou seja, o que está ocorrendo é o lançamento de uma base para campanhas repressivas no setor da educação, junto com outras em outras áreas, ao invés de se atacar os verdadeiros problemas do setor. Além disto, o presidente procurar valorizar o campo do ministro que ele mesmo desacreditou (o da Justiça, pseudo-herói da Lava-Jato) e recuperar o terreno perdido pela inabilidade de um ministro que de Educação não entende nada.

*Há várias fontes a respeito. Basta pesquisar "gastos em educação com relação ao PIB". Há dados da BBC, de O Globo, Exame etc.

 Fonte: RBA