Jovem de 19 anos é asfixiado até a morte em público por um segurança em uma unidade da rede de supermercados Extra do Rio de Janeiro. Pedro Gonzaga era o seu nome e a sua cor de pele e condição socioeconômica definiu cedo o seu destino. No supermercado, no shopping, na praia ou na rua o jovem negro é sempre suspeito, um potencial criminoso. 

Por Nágila Maria*

Foto: Reprodução
 Segurança do supermercado Extra matou jovem negro Segurança do supermercado Extra matou jovem negro
Me causa indignação o assassinato e me assusta o silêncio das pessoas. E indignar-se ou reagir não pode ser apenas lamentar, mas exigir que a sociedade se responsabilize por nossas vidas. Parece normal o assassinato de um jovem negro no supermercado e a morte cotidiana e sistemática da juventude negra. Todos os dias. Toda hora. A cada 23 minutos para ser mais precisa. São jovens pobres entre 19 e 25 anos de idade. Mas por que o corpo negro estendido no chão não comove? Por que o corpo negro amordaçado não causa reação nas pessoas?

A criminalização e exploração dos nossos corpos é uma das facetas mais cruéis do racismo estrutural no Brasil. E não se trata de um fenômeno recente, mas de uma maldita herança da escravidão, quando esses corpos eram abatidos, às vezes até à morte, para provocar submissão. Com o fim da escravidão, a discriminação racial e a vulnerabilidade social do negro perpetuaram sua exposição à violência.

A ausência de políticas públicas integradas para o povo negro, a pouca visibilidade nos veículos de comunicação, a sub-representação nos espaços de decisões e poder, a exploração do nosso trabalho e a pobreza contribuíram para a desvalorização das nossas vidas, enquanto o crime e a violência desumanizam-na. Mas por que os dados parecem não assustar a população? Porque essa realidade parece ser invisível ou insignificante? 

Nós, negras e negros, somos as maiores vítimas da violência no Brasil. De acordo com o Atlas da Violência de 2018, nos últimos dez anos, entre 2006 e 2016, 553 mil pessoas perderam a vida vítimas da violência. Dessas, 71,5% eram pretas ou pardas. O número de vítimas negras aumentou em 23,1%, enquanto o de pessoas não negras diminuiu 6,8%. Ou seja, a cada 100 assassinatos, 71 são de pessoas negras.

O Brasil é o país onde mais se mata no mundo com armas de fogo, superando muitos países em situação de guerra. A morte não pode ser mais o destino de tantos jovens negros e o genocídio não pode mais ser tão natural. A sociedade demonstra estar indiferente, pois está impregnada cultura e historicamente que o inimigo e o bandido é o jovem negro e pobre. Essa visão estigmatizada do negro deve-se a ação e omissão do Estado, que não pode mais se abster de criar soluções concretas para acabar com o genocídio da nossa juventude. Uma vida não pode ter menos valor e relevância que a outra. Chega de Racismo! O Estado brasileiro precisa reparar profundamente a dívida histórica que tem com a população negra. Precisamos parar o extermínio da nossa Juventude! 


 *Nágila Maria é diretora de Comunicação da União Nacional dos Estudantes (UNE)

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