Implementação esbarra em dificuldades financeiras, técnicas e regulatórias

Marcelo Soares
SÃO PAULO

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Tecnologia móvel mais esperada do ano nos Estados Unidos e em parte da Europa, a quinta geração de conectividade móvel (5G, com potencial de velocidade de 1.000 mbps) não deve chegar tão cedo ao Brasil. 

Além das dificuldades financeiras, há fatores técnicos e regulatórios no caminho. A projeção mais realista é a de que o Brasil tenha conexões5G no mercado em 2021. 

Para a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), é importante manter o protagonismo regional conquistado nas transições anteriores. O Brasil teve 4G antes da Argentina e do México.

O principal motivo do entusiasmo com o 5G é o fato de que a tecnologia promete velocidades até dez vezes maiores e latências bem menores.

A velocidade é o que permite assistir a vídeos ao vivo com qualidade e sem interrupções. A latência é o que faz um aplicativo de GPS avisar que precisava entrar à direita só depois de ultrapassar a esquina.

Com isso, aumentam as possibilidades de utilizar um volume maior de dados transmitidos por muito mais aparelhos: smartphones, carros, postes, marcapassos, freezers, semáforos, leitos inteligentes.

Pelas características do serviço, inicialmente o 5G deve estar disponível apenas em grandes centros urbanos, como já ocorre nos Estados Unidos. “No início do 5G ainda devemos ter acessos 2G, 3G, 4G e 5G”, diz Agostinho Linhares, gerente de espectro, órbita e radiodifusão da Anatel.

Hoje, 1.261 municípios ainda não têm acessos 4G (metade em Minas Gerais, Piauí, Goiás, Paraíba e Maranhão), e 137 deles só têm conexão 2G (três quartos no Rio Grande do Sul, Piauí e Goiás), única presente em todas as cidades brasileiras. É ela que está por trás das máquinas de cartão de pagamento.

De acordo com a Anatel, em novembro de 2018 o volume total de linhas de celular 2G era de 24,9 milhões (11,8%); 3G, 56,6 milhões (26,9%); e 4G, 128,8 milhões (61,2%).

O investimento necessário para o 5G será alto: além de comprar o direito de usar as frequências, as operadoras teriam de investir em um número grande de estações rádio base. Além disso, quase todos os equipamentos são comprados em dólar.

“A implantação do 3G ainda tem muito a se pagar, e também falta investir no 4G”, diz André Sarcinelli, diretor de engenharia do Grupo Claro.

Nos últimos anos, com o uso de aplicativos como o WhatsApp, muitos consumidores abandonaram o costume de ter chips de mais de uma operadora, reduzindo a receita das empresas e o volume total de conexões no país.

Quanto as empresas estarão dispostas a investir no5G e quais serviços serão oferecidos vai depender das condições do leilão das frequências de 3,5 GHz, mais apropriadas para a performance esperada do 5G. Esse leilão deve ocorrer entre o final de 2019 e o início de 2020.

O problema é que essa faixa de frequências está ocupada, mesmo sem regulamentação pela Anatel. Ela é usada para transmissão de TV aberta via antena parabólica. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), um em cada três domicílios brasileiros assiste à TV assim.

De um lado, as emissoras de TV se preocupam com a possibilidade de interferência pela nova tecnologia móvel. De outro, as operadoras de telefonia apontam que essa TV por satélite ocupa uma faixa muito grande das ondas, deixando apenas 200 MHz para a conectividade móvel, a serem divididos pelas operadoras credenciadas —o que fraciona a abrangência e a capacidade.

As operadoras, junto à Anatel, começaram em janeiro a fazer testes em laboratórios para avaliar o tamanho dessa interferência. Os testes devem durar dois meses. Deles, sairá uma definição se será necessário instalar filtros de frequência nas parabólicas para evitar interferência. Caso seja, ninguém sabe quem pagará pelos filtros, se as operadoras ou os consumidores.

Uma aposta importante está nas chamadas “ondas milimétricas”, acima de 26 GHz.

“São diferentes daquilo a que estamos acostumados e podem virar estações semelhantes a hotspots, com alcance de 100 a 150 metros em área urbana”, diz Linhares. “Não é uma faixa para garantir cobertura, e sim desempenho.”

Essas frequências ainda não são regulamentadas internacionalmente, mas a Anatel acompanha o debate para poder lançar o 5G “muito próximo a grandes países”.

Em países que já oferecem o serviço de 5G fixo, usa-se a faixa milimétrica de 28 GHz. É a mesma que a Telecom Italia, da qual a TIM é subsidiária, usa no teste iniciado em 2018 em Turim. No Brasil, essa faixa —conhecida como banda Ka— está ocupada pela banda larga via satélite.

Folha de S.Paulo