Por esse discurso, o vilão não é o malfeitor, mas aquele que flagra o delito

BRASÍLIA

Jair Bolsonaro, do PSL, e Romeu Zema, do Novo, tomaram posse há 28 dias e não têm culpa pelo que aconteceu em Brumadinho.

Mas o presidente e o governador de Minas são expoentes de uma corrente —apoiada por parte da sociedade— segundo a qual o errado não é o madeireiro que desmata ilegalmente, o empresário que burla normas sanitárias ou mantém trabalhadores em condições sub-humanas, mas sim o fiscalzinho de colete e seu maldito bloquinho de multas.

Sob o lema de que “é preciso tirar o Estado do cangote de quem produz”, promove-se atualmente uma das mais vigorosas campanhas de contestação ao trabalho fiscalizador do Estado, em diversas áreas: ambiental, alimentícia, trabalhista. ​

Longe de combater velhacarias que plantam dificuldade para vender facilidade, muitos querem mesmo é tirar o Estado do próprio cangote.

Bolsonaro e ministros não se cansam de vociferar contra a “indústria das multas”, o excesso de fiscalização, de regulamentação. Coincidentemente, o presidente foi flagrado em 2012 pescando em uma estação ecológica protegida por lei, em Angra dos Reis (RJ). Segundo a autuação, ele se recusou a mostrar documentos e ligou para o então ministro da Pesca do PT, Luiz Sérgio, para tentar dar a famosa “carteirada”.

Não deu certo. Protocolou então defesa dizendo que na hora do flagrante estava, na verdade, no aeroporto. Como havia sido fotografado pelos agentes, a mentira descarada não colou. A multa foi de R$ 10 mil. “Vou pagar essa multa? Vou. Mas sou prova viva do descaso, da parcialidade e do péssimo trabalho prestado por alguns fiscais do Ibama e ICMBio. Isso vai acabar”, disse, já como presidente eleito. De fato, acabou. Dias depois o Ibama anulou a multa e jogou o caso de volta à estaca zero. 

Bem mais eficiente do quesobrevoar a lama que mais uma vez se espalha desgraçadamente sobre Minas será enterrar de vez a parolagem malandra de que crescimento só é possível com a exploração inconsequente do meio ambiente e de pessoas.

Ranier Bragon

Repórter especial em Brasília, está na Folha desde 1998. Foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís e editor-adjunto de Poder.

Folha de S.Paulo