Grupos armados pelo regime chavista agora disputam controle das comunidades e fidelidades políticas

Sylvia Colombo
CARACAS

A principal diferença dos recentes protestos na Venezuela com relação aos dos anos anteriores é que estão descendo para as manifestações os habitantes dos bairros populares que cercam o centro de Caracas e, em geral, estão nas zonas mais altas.

Bairros como Catia, 23 de Enero, Petare são conhecidos como o berço dos coletivos, hoje milícias paramilitares, mas que em seu princípio ajudavam a população local com obras comunitárias. 

A eles, o governo deu armas e poder. A princípio, funcionavam como uma polícia alternativa e também vigilantes das operações políticas de oposição, além de manejar a entrega de bolsas de alimentação e outros benefícios.

Hoje, a situação é completamente outra. A Folha visitou algumas dessas comunidades, onde ocorreram os principais assassinatos da última semana, atribuídos por ONGs de direitos humanos a alguns coletivos, ao Faes e ao Conas, estes últimos esquadrões da morte que respondem ao Executivo. 

A primeira conclusão é que não se pode generalizar a ação dos coletivos. Muitos ainda são chavistas, outros deixaram a atividade repressiva de lado e, por andarem armados, extorquem a população. 

Outros, ainda, estão rebelados contra o governo e querem que a ditadura de Nicolás Maduro termine. Transformaram-se em “polícias comunitárias”.

“Em Catia, estamos fazendo vigilância armada do alto dos morros”, diz um deles, que não quis se identificar e nem tirar o capuz que vestia durante a entrevista à Folha.

Ele apontava para o alto de casas e ajudava a identificar seus “soldados”, de preto como ele, bandeira da Venezuela amarrada no braço. 

“Construímos esses muros com a desculpa de que eram para fazer propaganda do governo, mas na verdade é para impedir que forças do governo venham atirar na população”, conta, sorrindo, como quem se orgulha de uma façanha. 

De fato, o transeunte desavisado vê apenas imagens de Chávez, Maduro, slogans do governo. “Isso é porque sempre que vêm reprimir aqui, a repressão é diferente da dos bairros ricos, onde apenas te levam preso. Aqui atiram contra casas, famílias, senhoras idosas, crianças. Chega disso.”

Em 23 de enero, tradicional bairro “vermelho” onde inclusive está o mausoléu dedicado a Hugo Chávez (1954-2013) e que guarda seus restos mortais, a situação é ainda mais complicada. 

“Está havendo uma guerra interna entre os coletivos para ver quem controla a região e quem apoia ou é contra o governo”, conta Jesus Salgado, 24, de uma ONG local.

“Não creio que a motivação deles continue sendo política, como no princípio; é uma questão de quem lucra mais. O chavismo lhes deu armas, e com isso eles controlam negócios, bingos, discotecas, narcotráfico, prostituição, até mercados. Eles irão apoiar quem garanta que esse sistema continue funcionando.”

Salgado conta que a participação popular nos protestos antiditadura sempre existiu, mas que as pessoas antes saíam da periferia para protestar em Altamira ou Chacao (bairros de classe média e alta). 

“Agora que ninguém respeita mais os coletivos, protestam aqui mesmo. Alguns coletivos reagem, matam, mas os jovens não têm medo e os enfrentam, enquanto os mais velhos fazem panelaço nas janelas.” A maior parte dos mortos da última semana tinha entre 16 e 23 anos. 

Salgado mostra uma cédula de “panalito”, uma moeda local que existe há cerca de um ano em 23 de enero. É um papel impresso com um valor e que serve para comprar produtos nos mercados locais. 

“As pessoas recebem seus bônus em bolívares e vão direto ao Banco Panal, uma casa improvisada onde os coletiveiros trocam o bolívar pelo panalito. É uma loucura porque todo mundo sabe que é um dinheiro ilegal, mas preferem isso a ficar com um bolívar na mão que vai desvalorizar em um dia.”

E funciona. Acompanhada de Salgado, a Folha comprou mexericas com “panalitos”, aceitos sem o menor sinal de estranheza pelo vendedor.

Há muita gente que abandonou os coletivos, decepcionada com o governo. Porém, não devolveu suas armas. 

Em bares, restaurantes e comércios, é comum topar com consumidores ou vendedores que têm um volume na parte da frente da camisa, ou enfiado nas calças por trás. Não é por menos que a média de assassinatos nessa zona é de cinco por semana.

Um dos principais desafios do chavismo, se quiser permanecer no poder, é trazer de volta a suas filas os ex-coletiveiros que agora se dedicam a suas atividades criminosas. 

E o desafio da oposição, liderada por Juan Guaidó, é como desarmar essa população civil e reinseri-la na sociedade.

Folha de S.Paulo