Opositor Juan Guaidó diz que episódio é 'golpe de Estado', enquanto governo nega envolvimento

Sylvia Colombo
BUENOS AIRES

O presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, foi detido neste domingo (13), por cerca de uma hora, por agentes do serviço de inteligência do regime do ditador Nicolás Maduro.

Guaidó, que estava com a mulher e a filha, foi tirado de forma violenta do carro em que viajava —cena que foi gravada por outros motoristas em imagens de celular que viralizaram em redes sociais.

A informação da detenção foi veiculada primeiro pela mulher do congressista, Fabiana Rosales, que disse que a família viajava pela estrada que leva Caracas a La Guaíra, quando foram interceptados por agentes do Sebin (Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional).

Pouco depois do episódio, o ministro da Comunicação de Maduro, Jorge Rodríguez, irmão da vice-presidente, Delcy Rodríguez, disse que o procedimento contra Guaidó era irregular, e que, embora tendo sido efetuado por funcionários do Sebin, era uma ação "de alguns indivíduos" e não tinha a aprovação da cúpula do governo.

Acrescentou ainda que os funcionários que prenderam Guaidó estariam "sendo destituídos neste momento e submetidos a procedimentos disciplinários estritos".

Após ser liberado, Guaidó participou de um comício no estado de Vargas, vizinho a Caracas, para onde se dirigia quando foi detido pelos agentes do governo.

Primeiro, mostrou os pulsos machucados às câmaras. "Tentaram me algemar, mas não deixei, pois sou o presidente da Assembleia Nacional", afirmou.

Depois, acrescentou que o episódio era um "golpe de Estado", e que irá avançar em sua proposta de exercer o mandato de presidente, assumindo o poder e chamando eleições.

Guaidó também disse que sua prisão mostrava que "o jogo mudou. Se queriam enviar uma mensagem para que nos escondêssemos, aqui está a resposta do povo".

O deputado opositor também comentou a declaração de Rodríguez. "Se ele diz que os funcionários atuaram por sua própria conta, então é porque Maduro não controla mais as Forças Armadas do país."

O Sebin, porém, não responde às Forças Armadas, e sim diretamente ao Executivo. Há dois meses, Maduro destituiu o então chefe do órgão, Gustavo González López, e o colocou sob seu comando.​

Líder do Parlamento, de maioria opositora, Guaidó se declarou presidente interino do país na sexta-feira (11), um dia após Maduro tomar posse para um segundo mandato, até 2025, contestado dentro e fora da Venezuela.

“Ninguém duvida que Maduro é um usurpador. Por meio dos artigos 233, 333 e 350, convocamos o povo a nos respaldar, numa manifestação no próximo dia 23 de janeiro”, afirmou o deputado ao anunciar sua decisão.

A declaração de Guaidó recebeu apoio de organismos internacionais, governos estrangeiros como Brasil e EUA e de parte da oposição venezuelana. Maduro desdenhou o opositor: "Quem é? Quem o elegeu?".

Desde então, o líder opositor fazia reuniões pelo país para angariar apoio.

Apesar da declaração de Guaidó, o Parlamento não tem força política para se impor a Maduro. Desde 2017, o Legislativo teve seus poderes esvaziados pelo regime e repassados para a Assembleia Nacional Constituinte, controlada pelo governo.

Em sua posse, na última quinta-feira (10), Maduro reafirmou que a Assembleia Nacional estava em desacato e quem tinha "os poderes supraconstitucionais" do país era a Constituinte, formada apenas por governistas.

O opositor Henrique Capriles, candidato à Presidência em 2013, reagiu nas redes sociais, condenando a prisão de Guaidó, assim como María Corina Machado, que também denunciou a prisão do congressista.

"O sequestro de Juan Guaidó, Presidente da Assembleia Nacional e Presidente legítimo da Venezuela, é responsabilidade direta de Nicolás Maduro. O colapso se acelera", escreveu ela.

Guaidó, 35, é do partido Vontade Popular, o mesmo de Leopoldo López, preso em 2014 após uma onda de protestos contra Maduro. Desde 2017, ele se encontra em prisão domiciliar.

Em nota, 13 dos 14 membros do Grupo de Lima condenaram a ação contra o líder do Parlamento venezuelano.

"Os governos de Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Santa Lúcia, em face dos graves eventos ocorridos na Venezuela hoje: 1. Condenam a detenção arbitrária do Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, deputado Juan Guaidó, por parte do Serviço Nacional de Inteligência Bolivariano - Sebin, na manhã de hoje. 2. Expressam seu mais forte rechaço a qualquer ação que afete a integridade física dos membros da Assembleia Nacional da Venezuela, suas famílias e colaboradores, e a qualquer pressão ou coerção que impeçam o exercício pleno e normal de suas competências como órgão constitucional e legitimamente eleito na Venezuela", afirma a nota.

Desde que o esquerdista António Manuel López Obrador tomou posse em dezembro, o México não tem assinado comunicados de rechaço à Venezuela.

O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se manifestou por meio do secretário de Estado, Mike Pompeo, e do assessor de Segurança Nacional, John Bolton.

“Denunciamos a detenção arbitrária do Presidente da Assembleia Nacional Juan Guaidó pelo chefe da Inteligência venezuelana Manuel Cristopher Figuera”, afirmou Pompeo. “Convocamos as forças de segurança a respeitarem a Constituição e os direitos do povo venezuelano. Os Estados Unidos e o mundo estão assistindo.”

Bolton acusou o Sebin de ser patrocinado pelo regime cubano e disse que os “atos de intimidação” da polícia secreta de Maduro “representam um grave ataque ao Estado de Direito na Venezuela”.

O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luís Almagro, também se manifestou.

"Absoluta condenação e rejeição ao sequestro do presidente interino da #Venezuela  @jguaido. A comunidade internacional deve parar os crimes de Maduro e seus capangas", escreveu em rede social.

Fonte: Folha de S.Paulo