Presidente instila confiança econômica na população, que será afetada com alongamento do prazo até a aposentadoria

Vinicius Mota

SÃO PAULO

​​Um novo presidente da República está prestes a tomar posse. Essa é a única variável a explicar a brusca inversão de expectativas sobre a economia —do pessimismo para o otimismo— detectada pelo Datafolha. Tudo mais ficou constante.

Em tais ocasiões pouco frequentes, quando a história propicia um ambiente quase laboratorial ao observador, surge uma pista poderosa da razão pela qual o governo existe. Ele é um grande, talvez o maior, catalisador das esperanças e das desesperanças da comunidade política.

Na longa série do instituto, um outro episódio célebre de reviravolta no humor do eleitorado foi detectado no final de outubro de 2014, pouco antes do segundo turno da eleição presidencial. O mau humor predominante com o futuro de repente despencou —era a senha da disposição da maioria estreita para reeleger Dilma Rousseff—, mas menos de dois meses depois estava reposto.

Para determinar o sucesso e o fracasso de um governante, muitas vezes a convicção coletiva sobre o que vai ocorrer prevalece sobre os outros dados da realidade e sobre os desdobramentos prováveis dos fatos.

O fraco desempenho da atividade, da renda e do emprego nos últimos 18 meses da gestão Michel Temer foi incompatível com a boa qualidade da sua política econômica em parte por causa da desconfiança brutal que a figura presidencial suscitou na população após o escândalo da JBS.

Se o raciocínio estiver certo, Jair Bolsonaro vai receber um bônus na largada da administração, pois um fator importante da equação se modificou. O presidente da República agora instila confiança em parcela majoritária dos brasileiros, o que por si só tende a estimular o consumo e o preenchimento mais veloz da vasta capacidade ociosa das empresas.

Mas a inércia favorável será curta. Reimpulsionar o movimento depende de o governo conseguir alongar o horizonte da aposentadoria de dezenas de milhões. Será preciso arriscar o patrimônio que, no fim das contas, sustenta o otimismo vigente.

Vinicius Mota

Secretário de Redação da Folha, foi editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP.

Folha de S.Paulo