MARKETING MULTINÍVEL

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Em 40 dias, uma empresa que diz garantir ganhos de 43% ao mês afirma já ter conseguido 20 mil clientes, totalizando R$ 3 milhões em investimentos. A fórmula para quase duplicar isso em 60 dias, diz o dono da companhia, é um investimento proibido no Brasil, o chamado Forex (abreviação de Foreign Exchange Market). Mas a verdade é que grande parte da remuneração dos fregueses vem de outra atividade, típica de pirâmides financeiras, onde quem traz novos investidores leva parte do dinheiro que eles botam no negócio.

A King Investimentos, que “garante” aos seus clientes o que seria 516% ao ano, não é a única no mercado. Pode ser até considerada tímida se comparada a outra empresa semelhante, a Giga Investimentos, que oferecia de 90% a 100% ao mês para quem deixasse seu dinheiro lá. E tem ainda a Digittus Invest, lançada no último dia 9, que promete crescimento de 210% em 40 dias. Todas seguindo variações da mesma fórmula.

São cifras altas o suficiente para fazer o investidor desconfiar. O fundo de ações que mais se destacou no Brasil no último ano, por exemplo, rendeu, em média, quase 23% ao mês. E é um fundo considerado arrojado: oferece poucas garantias e bastante risco.

King, Digittus e Giga afirmam que os ganhos com Forex são garantidos. Mas não contam que estão num mercado de alta alavancagem com moedas estrangeiras. Ou seja, permite operações em valores muito superiores ao disponível em conta, o que abre a possibilidade de ganhos astronômicos e perdas, idem.

“O mercado é volátil para quem não sabe operar. Meu sócio obtém 90% de lucro em uma operação de cinco a dez minutos”, garante Mateus Ceccatto, presidente da King Investimentos. Ainda que seja verdade, no mundo dos investimentos, quem ganha 90% em cinco minutos pode perder 100% em outros cinco.

Investimento fora da lei
A operação em moedas estrangeiras alardeada pelas companhias é ilegal no Brasil. Nenhuma das empresas está registrada na Comissão de Valores Mobiliários, que não lista nenhuma corretora autorizada a atuar nesse mercado. Portanto, qualquer oferta de Forex no Brasil é proibida, ressalta a cartilha da CVM sobre o tema (clique aqui para ler).

Ceccatto se defende da acusação de fazer algo ilegal: “A CVM só regula o mercado mobiliário. Mas eu não opero com ações. São moedas estrangeiras. Se eu compro dólar, eu tenho que cadastrar a operação? Não”. O mercado de derivativos de moedas, no qual ele diz investir, no entanto, é regulado pela CVM, segundo a Lei 6.358/1976.

A verdade é que a empresa de Ceccatto não opera nada, no mercado nacional ou internacional. A King é cadastrada na Receita Federal como empresa de “Marketing Direto”, com a possibilidade de exercer também atividades de “pós-produção cinematográfica” e “edição de cadastros, listas e outros produtos gráficos”.

A explicação do presidente é que não é uma pirâmide, mas uma empresa de “marketing multinível”, na qual os vendedores são remunerados tanto pela venda de produtos quanto pela captação de novos vendedores. Questionado sobre que produto oferece aos clientes, Ceccatto esclareceu: rendimentos de 43% ao mês. “A gente vende lucro, uma multiplicação”, argumenta.

Ele insiste que o negócio “não precisa da entrada de novas pessoas” para ter rendimento. E diz conseguir, diariamente, com os investimentos em Forex, de 6% a 12% de lucro em cima do capital. “Se calcular em dias úteis, dá 140% mensal. E pagamos 43% para os clientes”, diz.

Quem faria os tais investimentos dos clientes, afirma, seria a empresa “Bentley Investimentos LLC”. Não existe qualquer referência a essa empresa na internet, apenas um material de divulgação da King e uma página no Facebook — onde o telefone cadastrado é o da King. A Bentley não tem registro na CVM, que lista cada corretora, agente autônomo de investimentos e instituição financeira, entre uma gama enorme de atores do sistema financeiro. 

A Bentley, assim como a Giga e a Digittus, não tem registro na CVM, que lista cada corretora, agente autônomo de investimentos e instituição financeira, entre uma gama enorme de atores do sistema financeiro.  

Indicado como responsável pela companhia, Agnaldo Bergamin, chamado de sócio por Ceccatto, não retornou os contatos da reportagem, nem respondeu a perguntas enviadas (e visualizadas) pelo WhatsApp. Na King Investimentos, o atendente diz que o CNPJ da Bentley “está em alteração” e, por isso, não há nenhum cadastro.

Esquema de pirâmide
A explicação para a adesão de tantos clientes está numa fórmula mais antiga do que supostos investimentos em Forex, criptomoedas ou apostas em jogos. A King, dirigida por Ceccatto, oferece a seus clientes metade do que for investido por uma parte dos novos adeptos trazidos por eles. Uma conta complicada, mas que alguns vídeos no YouTube fazem questão de dizer que é o “binário perfeito”.

Na Giga, a remuneração é de 5% para cada novo cliente obtido, um percentual que diminui a cada nova “geração” de indicados, chegando até o quarto nível da pirâmide. A Digittus usa o mesmo sistema, mas começa em 12% e remunera por novos indicados até o quinto nível da pirâmide. Os pagamentos dificilmente passam por bancos, sendo feitos por contas digitais pré-pagas, no miBank.

A velocidade com que um negócio desses nasce e se espalha é potencializada pelas redes sociais. O gráfico ao lado mostra a ascensão e queda das buscas pelos termos “Giga Investimentos”, “King Investimentos” e “Digittus Investimentos”, no Google. No fim de novembro, a King parece ter tomado o lugar da Giga e, agora, a Digittus começa a despontar, enquanto a King ensaia uma queda.

No WhatsApp, incontáveis grupos reúnem os “investidores” do negócio. No YouTube, dezenas de vídeos trazem pessoas contando como ganharam centenas ou milhares de reais com os esquemas. Alguns outros vídeos apontam que se trata de pirâmide e que quem botou dinheiro no esquema deveria sacar logo. Um traz o título sugestivo para criticar a King: “Quem avisa amigo é”. Outro, sobre a Digittus, deixa claro o funcionamento do negócio, que normalmente estoura na mão dos últimos incautos a entrar no esquema: “Quem chega primeiro, bebe água limpa”.

Revista Consultor Jurídico, 19 de dezembro de 2018