Protestos se intensificam e expõem a gravidade da crise .

  
O movimento chamado coletes amarelos, que começa a se expandir para além das fronteiras francesas, fez o presidente francês ceder, mas não dá sinais de arrefecimento. Depois do quarto sábado consecutivo de protestos, cresce a revolta com Emmanuel Macron. Segundo o jornal português Público, ele, que pretendia ser um presidente "jupiteriano" — numa referência a Júpiter, o rei dos deuses na mitologia romana, alguém que estaria acima das politiquices (uma rejeição aos partidos tradicionais que o impulsionou para a vitória e para uma maioria absoluta na Assembleia Nacional) e que empreenderia reformas ambiciosas, sem ceder à pressão das ruas — desceu à terra.

Macron é acusado de ser o "presidente dos ricos", depois de ter acabado com o imposto sobre as grandes fortunas, de fazer a “reforma” do sistema de aposentadorias e cortar gastos públicos. Os coletes amarelos — aqueles que é obrigatório ter nos carros para usar em caso de avaria ou acidente — já não querem só que o governo se comprometa a não aumentar as taxas sobre os combustíveis, mas também melhores salários e menos precariedade no emprego. Segundo os números oficias, cerca de 125 mil pessoas manifestaram-se neste sábado (8) em toda a França, das quais oito mil em Paris.

Segundo o Público, o líder da Assembleia Nacional, Richard Ferrand, anunciou que Macron vai quebrar o silêncio e falar no início desta semana. Não se sabe quando, nem em que formato, apenas que o presidente não quis falar antes de sábado "para não lançar mais lenha na fogueira" e complicar mais a situação. "Ele considera que não é o momento. Ele quer controlar o timing das suas intervenções", disse um membro da sua equipa ao jornal Le Parisien, sob anonimato, indicando que a ideia é manter "o efeito surpresa". 

Hipóteses de Macron

Resta saber o que dirá e se isso será suficiente para evitar novos protestos, no próximo sábado. "Para ele, este não é um episódio como outro qualquer. É uma crise com raízes profundas, devido ao grau de mal-estar expresso. É também uma crise moral. É uma loucura ter de apelar à calma, quando isso devia ter sido um reflexo democrático da parte de todos os partidos", disse uma fonte do Eliseu ao Le Parisien.

De acordo com o Público, Macron tem por isso duas hipóteses. Por um lado, pode fazer mais cedências, ficando ainda mais fragilizado e à mercê dos próximos que queiram sair à rua. Por outro, pode manter a posição de força, reiterando a necessidade de dialogar, o que poderá forçar uma maior divisão entre os coletes amarelos (que nunca foram um grupo homogêneo).

O problema, diz o Público, é que do outro lado não tem um interlocutor válido: o movimento nasceu e cresceu nas redes sociais, sem líderes claros. Além disso, escapou das mãos daqueles que lançaram os primeiros apelos aos protestos, com denúncias de infiltrações por parte de membros da extrema-direita e da extrema-esquerda, mais interessados em acabar com o sistema e em derrubar o governo. O movimento "criou um monstro", disse o ministro do Interior, Christophe Castaner.

Macron pode ainda jogar com a expectativa de que os protestos que começaram há quase um mês percam força, apostando que o apoio aos coletes amarelos comece a esmorecer na opinião pública à medida que se repitam as cenas de violência e de vandalismo. Ainda assim, pode ser um risco: 66% dos franceses inquiridos por uma sondagem Ifop para a Sud Radio, na última semana, disseram apoiar o movimento. Já a popularidade do presidente está no patamar mais baixo: 18%.

Nas ruas, os manifestantes gritam "Macron, demissão". Mas quem poderá cair é o primeiro-ministro, Édouard Philippe, cuja popularidade é ligeiramente superior (21%) depois de terem surgido sinais de divisões entre ambos. O chefe do governo defendia a suspensão do aumento da taxa, mas foi desautorizado umas horas depois pelo presidente, que anunciou o cancelamento.

Esquerda e direita

Philippe anunciou uma suspensão de seis meses do aumento da taxa na Assembleia Nacional. O tempo seria usado para refletir numa forma mais equitativa de introduzir essa taxa. Mas Macron foi mais longe, menos de cinco horas depois, anulando o aumento da taxa. Nos estúdios da BFM-TV, o ministro da Transição Ecológica, François de Rugy, explicou: "Assim, não há um engodo, uma trapaça. Falei com o presidente há poucos minutos ao telefone, disse-me: "As pessoas tiveram a impressão de que havia um engodo, que lhes dizíamos que era uma suspensão, mas que voltaria depois."

Benjamin Griveaux, porta-voz de Macron, pediu “às forças políticas e sindicais, ao patronato, para lançarem um apelo claro e explícito por calma”. Além disso, o presidente francês criticou a violência dos protestos na cidade de Puy-en-Velay, onde manifestantes usaram coquetéis molotv para incendiar o prédio da prefeitura. “Aos agentes da prefeitura de Puy-en-Velay: vocês experimentaram algo terrível no sábado. Não há justificativa para essa violência”, escreveu Macron em sua conta no Twitter.

Segundo informou a rede de notícias alemã Deutsche Welle, o pedido de Macron por paz foi respaldado por outros parlamentares. A ministra do Trabalho, Muriel Penicaud, afirmou, em entrevista a jornalistas, que estimular o caos “nada contribui para resolver os problemas”. O ministro do Interior, Christopher Castaner, pediu que manifestantes “responsáveis” não participem dos protestos.

Segundo o jornal português Diário de Notícias, parlamentares de esquerda e de direita aproveitaram a fragilidade de Macron, que conta com baixa popularidade, , para criticar sua gestão. Jean-Luc Mélenchon, líder da legenda de esquerda “França Insubmissa”, disse que o país está em “estado de insubmissão geral”. O mesmo fez o líder da bancada do partido de direita Os Republicanos, Christian Jacob, que disse que o “o verdadeiro responsável” pelo caos que vive a França “está no Eliseu”, em referência ao Palácio do Eliseu, sede do Executivo francês.


 Da redação do Portal Vermelho, com agências