Brasileiras já têm menos filhos que francesas e norte-americanas, o que acelera envelhecimento populacional e desequilibra a Previdência

Na ordem do dia, as propostas de reforma da Previdência se concentram em alongar o período legalmente ativo dos brasileiros. Como a população envelhece depressa, haverá cada vez menos trabalhadores para produzir os bens e serviços necessários ao suprimento dos aposentados nas regras vigentes.

Há duas outras terapias complementares para tratar o problema menos enfatizadas. A primeira parte da premissa de que, se cada trabalhador ao longo dos próximos anos produzir cada vez mais, a profundidade do buraco na previdência será menor.

É o desafio da chamada produtividade, mais ou menos estagnada há 30 anos. Depende diretamente do volume e, sobretudo, da qualidade da instrução nas escolas e nas empresas.

O segundo tratamento possível, e o mais negligenciado, é aumentar o sortimento de trabalhadores por meios naturais: menos jovens mortos, mais imigrantes e mais bebês.

O número médio de nascimentos por mulher no Brasil despencou para 1,7, distante dos 2 necessários para manter constante a população, e continuará em declínio provavelmente. A brasileira já tem menos filhos que a francesa e a norte-americana.

O contraste com o padrão de 1970, quando a fecundidade em estados populosos como Bahia e Ceará chegava perto de oito crianças por mulher, é brutal. Por essa razão o Brasil, então um dos países mais jovens do mundo, integrará o conjunto dos mais velhos em poucas décadas.

O avanço veloz do ensino básico entre as mulheres no período, em meio a um processo também acelerado de urbanização, explica parte dessa reviravolta. Mais instrução está fortemente correlacionada com menos partos.

Mas deve haver um bocado de desesperança a empurrar a tendência mais longe. De um diálogo respeitoso com essas mulheres previdentes poderia brotar uma política moderna e responsável de incentivo financeiro à natalidade no Brasil.

Vinicius Mota

Secretário de Redação da Folha, foi editor de Opinião. É mestre em sociologia pela USP.

Fonte: Folha de S.Paulo, 4 de dezembro de 2018