O mercado reagiu com otimismo à ida de Jair Bolsonaro (PSL) ao segundo turno da eleição presidencial. O dólar comercial fechou esta segunda(8) em queda de 2,35%, cotado a R$ 3,766 na venda. E a bolsa brasileira registrou o maior volume financeiro da sua história. Os negócios totalizaram R$ 29 bilhões e fizeram o Ibovespa fechar em alta de 4,57%. Por trás da euforia, a expectativa de que, se eleito, Bolsonaro levará adiante uma pauta anti-povo, que interessa aos financistas.

Por Joana Rozowykwiat

  
Após o resultado do primeiro turno ser divulgado, agentes do mercado avaliaram que, não só o militar da reserva pode comandar o país, como terá força no Congresso para aprovar medidas impopulares que a gestão Michel Temer não conseguiu emplacar. Daí vem a reação positiva à contagem dos votos. 

As urnas indicaram uma renovação do Congresso, mas com recuo dos partidos progressistas e de forças tradicionais de centro e direita, paralelamente a uma expansão fragmentada de outros partidos da direita, até então nanicos ou pertencentes ao chamado baixo clero. Elegeram representantes da bancada da bala, ativistas conservadores, integrantes de forças de segurança e religiosos.

“A nova composição do Congresso mostra que ele (Bolsonaro) pode ter uma boa governabilidade e conseguir aprovar algumas reformas com maior facilidade. O mercado tende a ir mais para os candidatos com uma visão menos estatista”, avaliou Fabrizio Velloni, chefe da mesa de operações da Frente Corretora, em entrevista a O Globo. 

O interesse nas reformas é compreensível, já que elas garantirão ganhos ao mercado financeiro. Assim como a reforma trabalhista beneficiou empresários que podem contratar seus funcionários sem pagar tantos direitos, a reforma previdenciária, por exemplo, beneficiará banqueiros, responsáveis por gerir os planos de previdência privada e fundos de capitalização. 

São também os rentistas os donos de títulos da dívida pública, essa mesma que o discurso corrente acusa de estar crescendo vertiginosamente por causa dos PT, embora os números insistam em negar. Fato é que Bolsonaro quer cortar gastos sociais e vender estatais para pagar parte da dívida pública, ou seja, beneficiando ainda mais esses tais rentistas. Mesmo que isso signifique abrir mão do patrimônio público a preço de banana e inviabilizar serviços públicos como saúde e educação para a população que mais precisa. Mesmo que isso não vá resolver o problema da dívida, pelo contrário. 

A experiência mostra que as privatizações foram usadas por Fernando Henrique Cardoso para tentar cobrir a dívida, mas ela se multiplicou durante sua gestão. E diversos analistas apontam que a austeridade fiscal atrapalha o crescimento, além de impor um sofrimento horrível à população. 

Mas é daí que vem a simpatia do mercado pelo candidato “menos estatista”. Porque menos Estado pode significar mais lucro para essa minoria. Essa máxima pode ser aplicada, por exemplo, na área de segurança. Uma das propostas de Bolsonaro é afrouxar as leis de porte de armas, para que mais cidadãos possam andar armados, exatamente o contrário do que faz o restante do mundo. 

"Não se vai resolver o problema (da segurança) distribuindo armas para a população. Ser presidente da República e dizer que a população se apegue à própria sorte e compre uma arma para se defender, então para que serve o presidente? O Estado não pode transferir para a população a responsabilidade de se defender", disse a então candidata Marina Silva, durante uma entrevista antes das eleições. 

Mas há quem celebre a proposta de Bolsonaro, não por razões cívicas, mas econômicas. As ações da fabricante de armas Forja Taurus abriram o pregão em disparada nesta segunda. Os papéis chegaram a subir 12,50%, sendo negociadas 6,30 reais. No ano, as ações acumulam valorização de 186%. É a perspectiva de ampliação do mercado consumidor, afinal. It’s not personal, it’s just business (Não é nada pessoal, são apenas negócios, como em O Poderoso Chefão). 

“Isso (a animação do mercado) diz respeito à governabilidade e à viabilidade de implementação de um programa liberal que o mercado sabe que é necessário para o país, um ajuste fiscal contundente, rápido e eficiente”, defendeu o ex-presidente do Banco Central Carlos Langoni, à Jovem Pan.

Segundo ele, os resultados eleitorais mostraram que há maior possibilidade de o plano de Paulo Guedes (assessor econômico de Bolsonaro) ser implementado. A plataforma a que ele se refere é o aprofundamento da agenda neoliberal de Michel Temer, rejeitado por 82% da população. Prova de que o que o mercado comemora muitas vezes não está em sintonia com o que é melhor para o povo. 


 Do Portal Vermelho