Pesquisa de universidade britânica mostrou que alguém que é demitido sofre por mais tempo do que uma pessoa que passa por um divórcio. Especialistas dão dicas para vencer esse trauma


por Jéssica Maes



“Não está mais dando certo” ou, então, “Eu sinto muito”. Esse tipo de frase dá calafrios em muita gente, mas, pasmem, costuma ser mais traumático quando sai da boca do chefe do que da pessoa amada.


De acordo com uma pesquisa feita Universidade de East Anglia juntamente com o What Works Center for Wellbeing, um organismo independente criado pelo governo do Reino Unido, a dor de uma demissão é tão aguda que causa uma queda maior na satisfação com a vida do que um divórcio ou uma viuvez. Os dados mostraram, por exemplo, que empregados que são demitidos nunca recuperam plenamente o mesmo nível de bem-estar, medido pela saúde mental, autoestima e realização pessoal.


O estudo aponta que pessoas que perdem o emprego se tornam cada vez mais infelizes ao longo do tempo. Neste caso, a melhor possibilidade de sair dessa situação é encontrar um novo trabalho permanente e, de preferência, melhor remunerado e com mais status do que a posição anterior. Já as pessoas com o coração partido, por outro lado, podem se recuperar e voltar a ter o mesmo nível de contentamento de antes.


Liamar Fernandes, coach de carreira da SBCoaching, diz que os resultados encontrados pelos pesquisadores não surpreendem.“Toda perda é desafiadora, mas se eu não tenho o que comer, como vou pensar em namorar? Você vive sem um parceiro, mas o trabalho tem esse significado de subsistência”, argumenta. 



Emprego é parte da identidade

Essa experiência traumática se dá, em grande parte, porque além da dependência financeira, nós dedicamos ao trabalho uma parcela muito grande do nosso tempo e da nossa atenção. Expressões ligadas à motivação como “vestir a camisa” ou ter “o DNA da empresa” não surgiram por acaso: seu objetivo é gerar envolvimento entre os funcionários e a companhia. “A relação do indivíduo com o trabalho é de bastante engajamento”, diz Carolina Walger, psicóloga organizacional e do trabalho e membro do Conselho Regional de Psicologia do Paraná. “A gente vai aprendendo as regras, as normas e vai se tornando um membro daquele grupo”.


Com um vínculo tão profundo, fazer parte de determinada empresa interfere e passa a compor a identidade de cada um. “É um relacionamento tão próximo e tão íntimo que a gente não consegue mais separar o nosso eu profissional do pessoal. Acontece o mesmo num casamento. A gente vai se moldando de acordo com o outro. Mudamos um pouco a identidade, a personalidade”, analisa a psicóloga. Por isso o rompimento é tão doloroso e deixa, em geral, um sentimento de traição.


Mesmo sabendo que não é uma situação fácil, a coach acredita que um dos segredos para lidar bem com uma demissão é procurar manter sempre uma visão sistêmica da profissão, analisando o cenário e tentando se preparar caso pior aconteça. “É preciso ver que este é um processo normal na vida, tudo tem começo e fim”.


Passado o susto, é hora de recomeçar

Depois do choque inicial, porém, é preciso seguir em frente. É importante refletir sobre o que levou à demissão, qual a parcela de responsabilidade do empregado – faltou comprometimento? Houve uma falha da liderança? Ou a culpa é de oscilações no mercado? – e, quando identificado o problema, o que fazer para melhorar aquele aspecto.


“Suprir essas lacunas de competência já ajuda porque a pessoa começa a se sentir melhor consigo mesma, se sente mais motivada”, afirma Alexandre Weiler, consultor de carreira da escola de negócios Esic. Além da autoestima, buscar mais capacitação também aumenta as chances do profissional encontrar uma recolocação no mercado de trabalho.


“O recrutador vai te perguntar [o que levou à demissão] e você pode dizer que resolveu aquele problema”, aconselha Weiler. “Todo mundo erra, mas só os bons colaboradores tentam consertar. Não existe perfeição, as empresas precisam de pessoas reais que estejam dispostas a resolver problemas”.


Foi demitido? Nada de ócio! Planeje-se e crie uma agenda de atividades diárias

Outra dica é não ceder à tentação de cair numa rotina desorganizada. É preciso traçar planos e, para colocá-los em prática, ter o controle da sua agenda diária. “Coloque no papel o que você pretende fazer e, desde o primeiro dia, estipule 8 horas de trabalho, seja procurando emprego, fazendo networking”, indica o consultor, que também recomenda usar ferramentas disponíveis online e off-line para se colocar de novo mercado de trabalho, como sites de vagas ou agências de recrutamento.


Liamar concorda: “Monte uma agenda com horários, como se estivesse trabalhando, com atividades que ocupem o dia: acordar, tomar café da manhã, ler o jornal, olhar sites de busca de vagas, preparar o almoço, ler um artigo sobre a sua área de atuação, fazer uma entrevista, ir ao clube nadar, encontrar colegas”, exemplifica.


Bola pra frente

Trabalhando há quatro anos como analista de importação em uma empresa de iluminação, Anderson Filadelfo de Souza sentiu na pele o peso da crise econômica nacional. A companhia teve que fazer cortes de pessoal e seu setor foi um dos afetados. “Foi uma experiência desagradável”, admite.


Mas ele não se deixou abater e tampouco perdeu tempo para tentar voltar ao mercado. “Estou fazendo cursos online, me atualizando. Especialmente quem trabalha na área de comércio exterior tem que estar sempre atualizado, tem que saber que acontece no mundo inteiro no dia a dia”. Investindo no networking, ele também aproveita para pedir dicas sobre entrevistas e organização do currículo para amigos que trabalham com recursos humanos.


A coach acrescenta que, mantendo um planejamento como este, ainda sobra espaço para aproveitar sem culpa o tempo livre que vem com o desemprego. “Tem gente que se sente mal de estar fazendo uma coisa boa para si, mas não tem problema porque você está fazendo a sua parte com as demais tarefas [na agenda diária]”.


Para Anderson, um prazer que o tempo livre trouxe é poder estar mais presente na vida das duas filhas. As atividades de capacitação e a busca por vagas estão encaixadas na sua rotina de acordo com a agenda das meninas. “Levo para a escola, para a creche, para a catequese, para o balé – até danço junto!”, conta.


Orçamento e planejamento devem andar de mãos dadas

Caso o obstáculo para cumprir essa programação e alcançar mais qualificação seja o orçamento apertado, vale a pena cortar gastos desnecessários – idas a restaurantes, ao cinema, viagens -–para poder investir na sua recolocação. “Tudo é supérfluo, menos conhecimento”, diz a coach Liamar . Contudo, Weiler recomenda cautela na hora de contratar serviços. “Fuja de empresas que cobram ou tentam vender cursos como condição para participar de processos seletivos. Há muitas pessoas que se a aproveitam das outras num momento de fragilidade”.


Colocando esse plano em prática fica mais fácil não apenas lidar com a situação difícil, como também ter mais chances de encontrar rapidamente um novo emprego – e ficar fora estatísticas dos traumatizados pelo fantasma da demissão. 




Fonte: Gazeta do Povo, 29 de maio de 2017.