A decisão do presidente Donald Trump de sobretaxar a importação de aço e alumínio pelos Estados Unidos, anunciada na quinta-feira (1º), causou turbulência política e nos mercados em todo o mundo nesta sexta-feira (2). No Brasil, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) disse, em nota, que a decisão é "injustificada, ilegal e prejudica o Brasil". Para a entidade, as medidas anunciadas por Trump ferem as regras da OMC (Organização Mundial de Comércio) e representarão prejuízo de US$ 3 bilhões para as exportações brasileiras de ferro e aço e US$ 144 milhões para as de alumínio.

"A CNI defende o respeito às normas internacionais e nacionais sobre defesa comercial e considera que o governo brasileiro deve utilizar todos os meios disponíveis para responder à decisão americana, inclusive no âmbito do sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), o que, em caso de vitória, nos daria direito à retaliação", afirmou o presidente da CNI, Robson Braga de Andrade. 

O diretor-geral da OMC, o brasileiro Roberto Azevêdo, abandonou sua imparcialidade tradicional com relação às medidas adotadas por diferentes governos e declarou que está "claramente preocupado com o anúncio dos planos dos EUA para aplicar tarifas sobre o aço e alumínio". O principal temor do diplomata é de que a ação americana seja rebatida por outros países com a aplicação de retaliações, o que abriria uma guerra comercial entre as maiores economias do mundo. 

Fontes consultadas em Genebra apontaram que a onda protecionista nos EUA e a possibilidade de medidas que serão adotadas por governos em todo o mundo como resposta representam um dos maiores desafios para a OMC em seu papel de árbitro internacional. 

A crise ocorre justamente num momento em que os tribunais da entidade estão à beira da paralisia diante de uma ação orquestrada pelo governo americano para frear a nomeação de novos juízes. 

O porta-voz do FMI (Fundo Monetário Internacional), Gerry Rice, afirmou em comunicado divulgado pela instituição que "as restrições a importações pelo presidente dos Estados Unidos provavelmente causarão danos não apenas fora dos EUA mas também à própria economia americana, incluindo seus setores de indústria e construção". "Nós (FMI) aconselhamos os EUA e seus parceiros comerciais a trabalharem de forma construtiva para reduzir barreiras comerciais e resolver divergências comerciais sem terem de recorrer a tais medidas de emergência", disse Rice. 

Já o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, anunciou que a Europa pode retaliar com sobretaxação de motocicletas da marca Harley Davidson, do uísque bourbon e de blue jeans. "Nós não podemos simplesmente olhar para o outro lado, não podemos ser ingênuos", afirmou Juncker, em entrevista exibida pela TV alemã. Ele disse ainda que as medidas tomadas pela União Europeia ficarão em linha com as regras da OMC. 

De acordo com uma fonte, as contramedidas tomadas pela UE podem resultar equivaleriam a uma taxação de US$ 3,5 bilhões de produtos americanos .

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, também condenou a medida anuncia por Trump. "Este é um plano totalmente inaceitável." O Canadá deve ser um dos países mais afetados pela sobretaxação dos produtos siderúrgicos, já que é o maior exportador de alumínio para os EUA e o segundo maior de aço. Trudeau afirmou ainda que vai pedir a Trump que ele inclua o país na lista de exceções de cobrança de sobretaxação do aço e alumínio. 

                 

'GUERRA BOA' 

Donald Trump anunciou planos de imposição de uma taxa de 25% sobre as importações de aço e 10% contra o alumínio estrangeiro, numa medida que visa proteger sua indústria dos EUA. Os detalhes, porém, serão conhecidos apenas na semana que vem. Nesta sexta-feira, ele publicou nas redes sociais um alerta de que considera que "guerras comerciais são boas" quando um país está "perdendo bilhões de dólares com virtualmente todos os países com os quais mantém negócios".

                     

Fonte: Folha de Londrina, 05 de março de 2018