O primeiro “Barômetro da Lusofonia”, estudo bienal e inédito sobre os países falantes da língua portuguesa, foi lançado oficialmente na última quarta-feira (28/1), em Lisboa. O documento, liderado pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), traz uma análise dos principais aspectos da cultura, sociedade e instituições dos países lusófonos, além de apontar as percepções dos cidadãos destas nações.

Barômetro da Lusofonia

Documento inédito foi lançado nesta semana em Lisboa; Ipespe liderou estudo

O levantamento aponta que saúde e desemprego são as áreas com maiores problemas para as populações. Outro ponto de destaque é sobre democracia e notícias falsas. Na média percentual dos entrevistados, a maioria (57%) dos cidadãos desses países não está satisfeita com o funcionamento do sistema democrático. Com relação às fake news, Brasil e Portugal lideram o ranking de populações que afirmam receber mais informações falsificadas.

Os problemas relacionados à Justiça nos países analisados estão entre os últimos citados pelos entrevistados. O único país com percentual relevante é Portugal, onde 5% dos entrevistados citaram espontaneamente a Justiça como um dos maiores problemas.

“O Barômetro revela que as preocupações centrais dos cidadãos da lusofonia estão ligadas à qualidade dos serviços públicos e às condições de inserção econômica. Em um segundo patamar, surgem temas como violência, inflação e acesso a água, energia e saneamento básico”, aponta Antonio Lavareda, diretor-geral do Barômetro e presidente do Conselho Científico do Ipespe.

“Ao colocar esses temas em perspectiva comparada, o Barômetro da Lusofonia distingue-se de outras iniciativas internacionais semelhantes. Seu diferencial reside não apenas na abrangência temática, mas sobretudo no fato de investigar diretamente o interesse, a familiaridade e as trocas culturais entre as populações dos países pesquisados”, escreve Lavareda na apresentação.

“O Barômetro, com sua concepção desenvolvida pelo Ipespe e pela CPLP, faz mais que levantar dados, registrar valores, percepções e expectativas: exprime a consciência de nossa identidade. E é esta que nos permite cooperar, integrar e realizar com uma base de informação que nos dê um caminho seguro e horizontes comuns”, afirma o ex-presidente José Sarney, responsável pelo preâmbulo da publicação.

Problemas e percepções

Embora a lista de principais desafios seja compartilhada, a ordem dos problemas varia consideravelmente entre os países lusófonos. Para os brasileiros, os principais problemas do país são saúde (45%), violência (40%) e educação (35%).

Vale observar que, depois da ação policial contra facções criminosas conduzida pelo governo do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha, no final de outubro de 2025, o tema da segurança ganhou maior centralidade no debate público nacional. Não é improvável que os 8% registrados no Brasil para política, guerras ou conflitos armados tenham relação com esse tema.

O estudo ainda aponta que 57% da população dos países não está satisfeita com o funcionamento da democracia. Os timorenses e os portugueses são os únicos entre as nações lusófonas cuja maioria declara estar satisfeita — respectivamente 75% e 61%.

Na maior parte dos países analisados, os resultados indicam níveis elevados de participação eleitoral declarada — nem sempre refletidos nos índices de votação de fato. Na média, 63% dos ouvidos afirmam que votam sempre e 13%, que votam na maioria das vezes. Apenas 11% declaram que votam raramente e 9% que nunca votam.

O Brasil, único país lusófono em que o voto é obrigatório, apresenta o maior nível de participação declarada: 88% afirmam que costumam sempre votar e 5%, que votam na maioria das vezes.

Nas métricas sobre fake news, o Barômetro aponta que 64% afirmam já ter recebido notícias falsas. Portugal (83%) e Brasil (80%) lideram esse ranking, seguidos por Angola (71%), Moçambique (71%) e Guiné-Bissau (67%). A referência aos conteúdos falsificados é mais baixa em Cabo Verde, São Tomé e Príncipe (ambos com 49%) e Timor-Leste (40%). Esse resultado, entretanto, pode representar não necessariamente uma menor incidência do problema, e sim maior dificuldade de identificá-lo, por uma série de fatores regionais.

Para essa primeira edição do Barômetro, foram feitas 5.688 entrevistas em uma ampla pesquisa simultânea em países de quatro continentes: África (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), América do Sul (Brasil), Ásia (Timor-Leste) e Europa (Portugal).

O objetivo do estudo é o fortalecimento da integração entre os países de língua portuguesa, aprofundando a compreensão sobre percepções, valores e expectativas compartilhadas e destacando o papel estratégico do português — que possui cerca de 300 milhões de falantes, constituindo-se como uma das línguas mais faladas do mundo em número de falantes nativos.

Todos os resultados deram origem a um livro — em versões física e digital — e a um ciclo de seminários no Brasil e demais países, além de uma rica base de dados que está disponibilizada a centenas de instituições de ensino e pesquisa, por meio da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), que reúne universidades com cursos de língua portuguesa, de Macau às Américas, para que alunos, professores e pesquisadores produzam dissertações, teses, artigos e publicações.

Principais conclusões do Barômetro:

Crescimento: Projeções indicam que, até 2100, teremos mais de 500 milhões de falantes do português, consolidando-o como uma das grandes línguas globais;

Protagonismo: Há interesse geopolítico e cultural crescente em torno da CPLP em temas como meio ambiente, recursos naturais, diversidade cultural e inovação;

Produção de dados: Pesquisa e dados científicos são valorizados como base para políticas culturais e sociais;

Influência global: A lusofonia está cada vez mais reconhecida como ativo estratégico global, cultural, econômico e diplomático.

O Barômetro conta com apoio e participação da Comunidade dos países de Língua Portuguesa (CPLP), da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), do Ministério da Cultura do Brasil, da Missão Brasileira junto à CPLP, do CC&P, da Fundação Itaú, da Duplimétrica, da FGV Conhecimento, da Federação Lusófona de Ciências da Comunicação (Lusocom), do Instituto Camões de Cooperação da Língua, da Universidade Católica da Guiné-Bissau, da Fundação Joaquim Nabuco, da Universidade Federal de Minas Gerais, da Universidade Federal de Pernambuco, da Universidade Federal do Rio Grande Sul, da Universidade Federal de Santa Maria, da Unitau, da Universidade Católica de Pernambuco, da Universidade Autónoma de Lisboa e da Universidade de Coimbra.

Clique aqui para ler a íntegra do documento

CONJUR

https://www.conjur.com.br/2026-jan-30/saude-e-desemprego-sao-os-principais-problemas-dos-paises-lusofonos/


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