Por Gustavo Ferreira, Valor Investe

A semana dos mercados abriu à espera do "Big Bang Day" prometido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, para esta terça (25). Mas, já no começo da tarde, a analogia com a grande explosão criadora do universo foi reajustada para só um estalinho.

Investidores operavam desde cedo nesta segunda (25) com decisões contidas pelo anúncio de uma série de medidas que seriam oficializadas pelo governo. Seja para destravar gastos no curto prazo, seja para fazer cortes de dispêndios de olho no longo prazo da economia brasileira.

Em linhas gerais, cinco medidas eram esperadas para esta terça:

  1. O programa de renda básica Renda Brasil, em substituição a uma série de programas sociais, incluindo Bolsa Família, abono-salarial e seguro-desemprego;
  2. Uma nova taxação sobre transações, semelhante à antiga CPMF, em paralelo à desoneração da folha de pagamentos;
  3. Remanejamento de recursos para permitir obras em infraestrutura sem, para isso, desrespeitar o teto de gastos em 2021;
  4. E um novo Pacto Federativo, via proposta de emenda constitucional (PEC), que permitiria flexibilizar o uso de verbas hoje com destino engessado, em tese, ajudando a amortecer o endividamento público;
  5. Uma recauchutada no programa Minha Casa, Minha Vida, transformado em Casa Verde Amarela, para permitir não só compras subsidiadas de imóveis, também de reformas;

Ao longo da tarde, no entanto, investidores ficaram sabendo que a terça-feira deve trazer apenas o anúncio desse último item da lista acima. Que nem mesmo é focado em cortar custos, como deseja a maior parte dos investidores, ao contrário.

  • Com incertezas sobre as contas públicas mantidas e a agenda nacional relativamente esvaziada nesta segunda-feira (24), o exterior recuperou parte do espaço perdido nos radares dos investidores no país em agosto.
O clima foi de apetite ao risco renovado nas principais bolsas, com esperanças não menos reavivadas sobre, enfim, o começo do fim da pandemia. Nos Estados Unidos, o presidente americano, Donald Trump, estaria tentando acelerar a liberação de uma vacina experimental do Reino Unido.

De acordo com o Financial Times, a agência de vigilância sanitária americana poderia autorizar aplicação das vacinas já em outubro, antes das eleições à Casa Branca marcadas para novembro. Trump está atrás do candidato democrata Joe Biden nas pesquisas. Para correr atrás do prejuízo, o republicano estaria apostando fichas nas vacinas em testes pela parceria entre a farmacêutica AstraZeneca e a Universidade de Oxford.

Foi incorporado ao preço de algumas exportadoras o possível cenário de a maior economia do mundo começar a virar já neste ano a página da crise sanitária. E isso pode significar retomada da demanda, e de receita para companhias, mais intensa do que se pensava no curto prazo.

  • Com isso, papéis da Petrobras (9% do Ibovespa) encerram o dia em alta de 1,82%, puxados pelos preços do petróleo avançando 1,75% em Londres;
  • Ações da Vale (11%), apesar da baixa diária de 1,7% dos preços do minério na China, conseguiram arrancar do pregão 1,22% de alta;
  • Papéis de bancões (18%) encontraram espaço para altas acima de entre 1,66% e 2,69%, dados os descontos recentes incompatíveis com a resiliência na crise que deles se espera;

Na ponta de baixo, papéis da B3 (7%) diminuíram a queda no fim do dia para 0,11%. Andaram em baixa nesta segunda com investidores de olho no aumento da projeção do mercado para a Selic em 2021, de 2,75% a 3% ao ano, aferida na pesquisa Focus. Os juros baixos são a principal razão para o grande crescimento do volume de negociações da bolsa. Se sobem de volta, tendem a diminuir a vantagem relativa dos retornos da bolsa em relação à renda variável.

Ações de varejistas, que também têm a perder em receitas caso os juros de financiamentos e empréstimos suba, também preencheram o campo das perdas na sessão.

O Ibovespa fechou o primeiro pregão da semana em alta de 0,77%, aos 102.298 pontos.
  • Com 44 ações em alta, foram movimentados pelos 75 papéis da carteira teórica nesta segunda-feira R$ 18 bilhões.

curva de juros, intensificando o refresco dado nas duas sessões passadas, moderou mais um pouco a sua inclinação nesta segunda. Faz poucos dias, havia sido atingido o maior nível desde maio, sob pressão de risco crescente de calote do governo pela frente. Mas desde que a Câmara manteve o veto presidencial ao aumento de servidores por dois anos, parte da alta das taxas vêm sendo devolvida.

  • Com amparo também dos bons ventos vindos do exterior, taxas dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 ficaram paradas em 1,93%;
  • Ponto mais distante da curva, e mais ligado à trajetória da dívida pública, taxas do DI para janeiro de 2027 deslizaram de 6,79% para 6,70%.

No câmbio, entre as preocupações com o Brasil (que pressionam o dólar a subir) e as esperanças de dias melhores para os Estados Unidos (que faz pressão de baixa), pesou mais o segundo fator. O preço da moeda americana abriu, portanto, a semana em queda. Mas diminuindo só um tiquinho da alta de mais de 3% concentrada só na semana passada.

Outras bolsas

Tudo azul nesta segunda no Oriente.

Incentivaram compras do outro lado do mundo as máximas históricas renovadas pelas bolsas americanas na sexta-passada. Além disso, os rumores sobre americanos vacinados em breve permitiram a todos os índices andarem na mesma direção no Oriente.

Saldo lá onde o sol nasce primeiro nesta segunda:

  • Hang Seng (Hong Kong): +1,74% (25.551 pontos)
  • Kospi (Coreia do Sul): +1,10% (2.329 pontos)
  • ASX 200 (Sidney): +0,30% (6.129 pontos)
  • Nikkei: +0,28% (22.985 pontos)
  • SSE Composite (Xangai): +0,15% (3.385 pontos)
Na Europa, os ganhos foram bem mais expressivos, sob mesmo pano de fundo.

Na agenda corporativa do continente, destaque principal para a alta de mais de 7% das ações da companhia de telecomunicações britânica BT. A disparada teve como motor veio das notícias de que a empresa está se calçando contra tentativas de compras de rivais. Recentemente, ao suspender o pagamento de dividendos, os papéis tocaram o nível de preço mais baixo em uma década.

O Stoxx 600, índice com 600 ações europeias mais negociadas em carteira, caiu 1,07%, aos 365,64.

Assim fecharam os cinco principais índices nacionais:

  • Dax (Frankfurt): +2,36% (13.066 pontos)
  • CAC (Paris): +2,28% (5.007 pontos)
  • FTSE MIB (Milão): +2,12% (20.113 pontos)
  • Ibex 35 (Madri): +1,82% (7.109 pontos)
  • FTSE (Londres): +1,71% (6.104 pontos)
Nos Estados Unidos, as ações da Apple avançaram 1,20%, e puxaram Nasdaq e S&P 500 para novos recordes, na sequência dos da sexta passada.

Mas que a leitora ou leitor não se surpreendem caso os próximos pregões sejam de mais comedimento em Wall Street. É aguardado com alguma cautela o simpósio anual de dirigentes de bancos centrais do muno todo, em Jackson Hole, nos Estados Unidos, na quinta-feira (27).

Pareceres sobre o estado atual da crise, do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e do Banco Central Europeu, são especialmente esperados. A julgarmos pelas últimas projeções reveladas, bem menos otimista do que a alta das bolsas poderia sugerir, podem vir novos gatilhos para realizações.

Nesta segunda, não vieram em Nova York:

  • Dow Jones: +1,35% (28.308 pontos)
  • S&P 500: +1,00% (3.431 pontos)
  • Nasdaq: 0,60% (11.379 pontos)

Mais destaques do Ibovespa

Com as especulação sobre o "Big Bang Day" do governo, adiado de terça para sabe-se quando, as ações da Eletrobras tiveram mais um dia de disparada.

Especula-se que a venda da empresa à iniciativa privada, empacada desde o governo Temer, seja destravada. Papéis ordinários (ON, que dão direito a voto em assembleias) da estatal elétrica subiram 9,74%. Os preferenciais (PN, que dão preferência por dividendos), outros 8,02%. Lideraram os ganhos do dia.

Na sequência, embaladas por um fim da pandemia quem sabe mais veloz, caso as notícias promissoras sobre vacinas se confirmem, vieram as altas das companhias ligadas ao turismo internacional. Papéis da fabricante de aviões Embraer subiram 5,52%; da Azul, 4,06%; e da Gol, 3,56%.

Entre os bancos, maior alta do dia para ações do Banco do Brasil, de 2,69%.

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