Juliana Serrate de Campos Genesini

As empresas que não possuíam todo o equipamento adequado, precisaram investir rapidamente na compra ou aluguel de notebooks, contratação de empresas de suporte técnico para sanar eventuais problemas à distância, adequação de sistemas operacionais, treinamentos, e até mesmo custeio de internet para os que não a possuem.  

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Após o início da quarentena em março, em decorrência do crescimento da pandemia de covid-19 no Brasil, para cumprir o isolamento social e evitar o risco de propagação do vírus entre seus funcionários, inúmeras empresas e escritórios adotaram o home office como medida temporária, mandando para casa aqueles que poderiam trabalhar de forma remota.

O método, que já era considerado comum em alguns países, acabou obrigando os que estavam estudando sua viabilidade a começar desde já. Inicialmente acompanhado de certo receio, o home office ganhou espaço e reconhecimento pela sua produtividade, gerando debates acerca de sua instituição definitiva ou gradual nas empresas.

A “Cushman & Wakefield”, empresa multinacional de gestão de escritórios corporativos, realizou uma pesquisa com 122 executivos, na qual 73,8% disseram que pretendem instituir o home office como prática definitiva no Brasil após a pandemia. Antes da crise, apenas 33,6% das empresas já haviam aderido ao trabalho de forma remota, sendo 42,6% a porcentagem de companhias que nunca haviam adotado o método. Ao final, 23,8% foi a cifra de empregadores que apenas estudavam sua possibilidade.

A mesma pesquisa apontou que 45% das empresas já decidiram pela redução de seus espaços físicos, entregando salas e/ou andares alugados, tendo em vista a redução de custos somada ao sucesso obtido com a implementação do home office. O escritório “LafargeHolcim”, localizado no centro do Rio de Janeiro, atuante na área administrativa da multinacional produtora de materiais de construção, anunciou que os 150 funcionários da sede carioca irão permanecer trabalhando em casa após o final da pandemia. Com a entrega do imóvel, a companhia estima economizar R$ 2 milhões devido aos custos fixos com aluguel, estacionamento, taxa condominial, alimentos e bebidas de copa, entre outros.

A “Coca-Cola”, por sua vez, anunciou que 600 colaboradores que operam nos escritórios da companhia permanecerão em home office até o final de 2020. A medida busca priorizar a saúde daqueles que precisam trabalhar na produção e distribuição, e que não possuem a opção de trabalhar em casa.

Gigante das Redes Sociais, o “Twitter” decretou home office definitivo para todos os seus funcionários em escala mundial, apontando que acreditam ser uma tendência para o mundo pós-pandemia. A empresa notou que os empregados são mais produtivos por não precisarem enfrentar trânsito no deslocamento de casa até o escritório, e também por poderem dedicar mais tempo às famílias e aos exercícios físicos.

Para garantir a organização e rendimento das equipes, diversos empregadores instituíram reuniões semanais de alinhamento de metas e planejamentos estratégicos, bem como feedbacks mensais para avaliação do funcionário pelo gestor. O executivo Alexandre Gama afirma que o principal desafio para a implementação total do home office em sua empresa “InovNation” foi a mudança do mindset do funcionário: “As oito horas de trabalho acontecem de forma não corrida, o corpo diretivo tem que alinhar a métrica e a performance conforme os interesses da empresa”. Também informa que, dependendo da necessidade do cliente, buscam um espaço coworking para a realização de reuniões presenciais, ou até mesmo um café da manhã ou almoço fora.

Não há como negar que o processo emergencial de implementação do home office trouxe obstáculos aos gestores. Entre os desafios encontrados, há questões envolvendo a sobrecarga de trabalho, diferenciação entre vida profissional e pessoal, e fornecimento de aparato tecnológico que possibilite ao funcionário o trabalho em sua casa. A mencionada “LafargeHolcim” permitiu que os colaboradores buscassem seus materiais de trabalho no escritório, desde cadeiras até desktops, teclados e mouses, custeando o deslocamento por transportes de aplicativo para quem não tivesse veículo para buscar.

Acerca da definição de metas e questões envolvendo sobrecarga de trabalho, o diretor do centro de liderança da “Fundação Dom Cabral” insiste na clareza de informações entre gestores e funcionários: “Nossas pesquisas mostram que, em geral, as pessoas têm uma percepção positiva do home office. Mas suas preocupações com relação aos chefes permanecem. Elas se perguntam se o gestor está transmitindo de maneira eficaz as informações, se ele é capaz de avaliar bem o trabalho delas e se está colocando barreiras que delimitam a linha entre o pessoal e profissional”.

Ainda, as empresas que não possuíam todo o equipamento adequado, precisaram investir rapidamente na compra ou aluguel de notebooks, contratação de empresas de suporte técnico para sanar eventuais problemas à distância, adequação de sistemas operacionais, treinamentos, e até mesmo custeio de internet para os que não a possuem.

Diante do novo formato e sem a certeza do rendimento a longo prazo, bem como com a necessidade de mudanças contratuais em massa, muitas empresas optaram por não decidir nada de forma definitiva, tendo em vista que a situação atípica um dia chegará ao seu fim.

De qualquer forma, podemos concluir que o novo modelo veio para ficar, mesmo que inicialmente de forma gradual. Permanece a ideia de que o escritório físico será sempre um local para debates e gestão de conhecimento, mas não essencialmente para o trabalho em si. O baque causado pela pandemia mostrou, de um lado, a velocidade com que nos adaptamos às situações adversas, e, de outro, que quem não tiver um bom plano de contingência ou investimentos em tecnologia não terá espaço no futuro próximo.

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t*Juliana Serrate de Campos Genesini é advogada associada da Advocacia Hamilton de Oliveira. Pós-graduada em Direito do Trabalho e Processo do Trabalho. Sua prática tem sido dedicada à área do Direito do Trabalho e Processo do Trabalho.