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Guerra civil espanhola: Miguel Hernández e Rosario Dinamitera

Lorca não foi o único grande poeta assassinado pela contra-revolução fascista na Espanha. Neruda evoca com igual emoção a memória do jovem Miguel Hernández, que “de pastor de cabras se havia transformado em verbo militante” e recitava seus versos na primeira linha de fogo.

Por João Quantim de Moraes*, especial Grabois

 

Foto: Reprodução
Miguel Hernandez e Rosario Dinamitera
Miguel Hernandez e Rosario Dinamitera


Conhecera-o, junto com outros amigos de Lorca, em 1934, ao chegar em Madri. Era “tão camponês que carregava uma aura de terra em torno dele”. “Contava-me contos terrestres de animais e pássaros. Era um escritor saído da natureza como uma pedra intacta, com virgindade selvática e arrebatadora força vital”.

Miguel Hernández lutou até o fim. Quando, finalmente, se impôs de vez a esmagadora superioridade mecânica e logística dos fascistas, ele pediu asilo na Embaixada chilena, na qual tinham se abrigado, durante os dois anos e meio em que Madri foi o heróico bastião da República, nada menos do que quatro mil franquistas. O embaixador Carlos Morla Lynch, no entanto, “negou asilo ao grande poeta, embora se dizendo seu amigo”. Logo em seguida Miguel foi preso e encarcerado. “Morreu de tuberculose no calabouço, três anos mais tarde. O rouxinol não suportou o cativeiro”. 

Deixou poemas entranhados, dentre eles o que consagrou a Rosario Sánchez Mora, que ele celebrizou pelo epíteto La Dinamitera. Nascida em Villarejo de Salvanés em 21 de abril de 1919, Rosario viera para Madri em 1935, com dezesseis anos. Vivia com vizinhos de sua pequena cidade natal, que a tinham trazido para que cuidasse de seus filhos. Para uma garota pobre era a maneira possível de viver na capital. Simpatizante comunista, no sábado 18 de julio de 1936, quando já se confirmavam notícias do êxito parcial da sedição militar fascista iniciada na véspera no “protetorado” espanhol do Marrocos, alistou-se no corpo de voluntários que a Juventud Socialista Unificada (formada em março de 1936, pela fusão da juventudes comunista e socialista), estava mobilizando para resistir ao golpe. Em Madri, em Barcelona, em Bilbao, os golpistas tinham sido derrotados. No domingo 19 de julho de 1936, o general golpista Fanjul ocupou o Cuartel de la Montaña, situada numa elevação na entrada de Madri. Alguns corpos armados que permaneceram fiéis à República (Guardia Civil, Guardias de Asalto, parte da Aeronáutica), apoiados por operários e estudantes empunhando as armas distribuídas pelo governo da Frente Popular, cercaram o quartel, que foi tomado após um dia e meio de combate.

Rosario não participou do cerco e tomada do Cuartel de la Montaña. Na madrugada do dia 19, tinha partido para Somosierra, na sierra de Guadarrama, 93 km. ao norte de Madri, numa coluna de caminhões repleta de jovens voluntarios, dispostos a barrar o caminho à contra-revolução. Naquele momento o perigo maior vinha do norte. O general Mola, comandante em chefe da sedição fascista (morreria em acidente, deixando o comando ao general Franco), tomara Burgos e dali desfechara uma ofensiva em direção a Madri. Cumpria detê-lo nas alturas de Guadarrama. Logo que chegaram, Rosario e seus companheiros foram enquadrados, com um mosquetão de sete quilos e sem outra instrução militar além da que foram assimilando em pleno tiroteio, numa tropa de choque comandada pelo comunista Valentín González, celebrizado pelo cognome El Campesino. Na Peña del Alemán, posição avançada que os fascistas se empenhavam em conquistar, Rosario viu morrerem muitos dos garotos com quem tinha vindo de Madri. Mas após duas semanas de duros combates, os inimigos foram contidos e o front se estabilizou.

Rosario foi então destacada para a secção de dinamiteiros, comandada por um mineiro asturiano, o capitão Emilio González González, especialista no manejo de explosivos. A base do grupo estava entre as cidadezinhas de Buitrago e Gascones, cerca de cinco quilômetros da linha de fogo. Na manhã de 15 de setembro, ela e seus companheiros aprendiam a manejar cartuchos de dinamite. Tinha chovido durante a noite e o pavio que Rosario acendeu estava húmido, queimando por dentro, mas sem fazer, por fora, aquele calor que anuncia o instante do arremesso. O cartucho lhe estourou na mão, destruindo-a. Gravemente ferida, foi operada no hospital de sangue mais próximo, onde lhe salvaram a vida.


Assim que lhe deram alta, voltou a se integrar na unidade de choque de El Campesino, que se tornara a 10ª Brigada Mixta, com mais de três mil combatentes, aquartelados em Alcalá de Henares. Recibida com honras de heroína, Rosario foi destinada ao Comitê de Agitação e Propaganda. Acompanhou o deslocamento para Madri do Estado Maior de El Campesino e lá travou amizade com o jovem poeta sevilhano Antonio Aparicio. Este um dia veio visitá-la acompanhado de outro poeta e amigo por quem professava veneração e que não era outro senão Miguel Hernández. O “pastor de cabras transformado em verbo militante” entregou a Rosario o pequeno poema que lhe tinham inspirado suas façanhas e o acidente que, como dirão seus versos, transformou em estrela a mão direita da jovem miliciana:




No verão de 1937, Rosario voltou à linha de frente, assumindo o serviço de correspondência dos soldados e assegurando o contato com o Estado Maior de Madri. A 10ª Brigada Mixta de El Campesino, que se tinha se transformado na 46º Divisão, com mais de doze mil combatentes, desfechou uma contra-ofensiva em direção de Brunete na tentativa de cercar as forças fascistas que sitiavam a capital pelo sudoeste. O objetivo foi parcialmente atingido com a tomada de Brunete, mas a superioridade de meios bélicos do inimigo lhe permitiu retomar logo em seguida essa posição chave. 

De volta a Alcalá, Rosario casou-se dia 12 de setembro con Francisco (Paco) Burcet, sargento da Sección de Muleros, que conhecera na 10ª Brigada Mixta. Tiveram alguns meses para viver seus intensos amores. Rosario engravidou. Mas em janeiro de 1938, Paco partiu para Teruel, última grande batalha em que a República encontrou forças para uma contra-ofensiva. O terreno conquistado a duríssimas penas (inclusive a cidade de Teruel) foi perdido logo depois. A divisão de El Campesino voltou a Madri, exausta e dizimada. Para Rosario e Paco foi a segunda e última temporada de amores. Ficaram juntos duas semanas, até Paco partir com sua unidade para a frente aragonesa, onde os fascistas estavam em plena ofensiva. Mantiveram correspondência durante alguns meses; em 22 de julho nasceu sua filha, Elena. Em meados de novembro, terminava a batalha do Ebro: a zona republicana foi cortada em duas pelas tropas de Franco, que lançaram sua ofensiva final. Desde então, ela não recebeu mais cartas de Paco. Em abril de 1939, tudo estava terminado: após os trágicos horrores da guerra, viriam quatro décadas de opressão clérico-fascista.

Rosario deixou Elena com a segunda mulher de Andrés, seu pai, e com ele tentou escapar pelo porto de Alicante. Lá tinham se concentrado cerca de 15.000 republicanos, na expectativa de embarcar nos navios da Sociedade de Nações, que nunca chegaram. Pusilanimidade ou calhordice pura e simples, os sempre hipócritas governos liberais europeus deixaram os defensores da República Espanhola cair nas garras dos carniceiros. (Os que lograram atingir o território francês, por terra ou por mar, foram confinados em campos de concentração). Andrés, pai de Rosario, foi fusilado sumariamente, como muitos outros. Ela foi levada a Madri, onde fascistas de sua aldeia natal forneceram seu currículo completo aos órgãos do novo Estado franquista. Pediram a pena de morte para ela; acabou condenada a trinta anos. Percorreu vários presídios, começando pelo de Ventas, “enorme armazém humano” em que se amontoavam mais de quatro mil mulheres (dez vezes mais do que sua capacidade). No dia 28 de março de 1942, foi posta em liberdade condicional. Nesse mesmo dia morreu na prisão de Alicante, após longa enfermidade agravada pelos maus tratos carcerários, o querido poeta Miguel Hernández.

Como tantos outros defensores da República que não puderam ou não quiseram emigrar, passou as muitas décadas da ditadura de Franco num exílio interior. Uma vida de perseguições e discriminações, “dura y valiente”, como ela disse aos oitenta e seis anos numa entrevista. Graças ao escritor Carlos Fonseca, dispomos de uma bela história dessa sua vida: Rosario dinamitera. Una mujer en el frente (Temas de Hoy, Madri, 2006). A miliciana de mão de estrela morreu em 17 de abril de 2008. Foi enterrada no cemitério civil de la Almudena, en Madri (separado do católico), na presença de suas duas filhas e uma centena de amigas, amigos, camaradas, entre os quais Paco Frutos, secretário geral do PCE. Ficou em muito honrosa companhia: lá está enterrada a grande dirigente comunista Dolores Ibarruri, bem como Pablo Iglesias, marxista e dirigente histórico do socialismo espanhol. Na curta cerimônia laica do enterro, a única oração que se ouviu foi o poema que Miguel Hernández tinha escrito para ela, setenta e dois anos antes. No final, alguém gritou “Viva la República!”. “Viva la República!” repetiram os demais. E sairam cantando a Internacional.



Fonte: Vermelho, 22 de julho de 2016



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