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Nesta pequena cidade britânica, o Brexit era a alternativa à falta de perspectiva

Como a amargura da classe média trabalhadora explica os votos a favor




20160721aCréditos da imagem: ANDREW TESTA/NYT



Depois de trabalhar como lixeiro, funcionário de uma padaria e empacotador em uma fábrica de alimentos enlatados, Colin Hewlett, assim como a maioria dos habitantes de Wigan – uma cidade cinzenta do norte da Inglaterra – se orgulha de fazer parte da classe trabalhadora. Ele joga sinuca e bebe cerveja no Working Mens Club, o bar que fica em frente a sua casa de tijolos aparentes. Sempre que chegam as eleições, ele – assim como seu pai costumava fazer – vota no Partido Trabalhista.


O Partido Conservador, que compõe a atual base governista e que ganhou as eleições em Wigan pela última vez em 1910, é “para os endinheirados e os cidadãos de segunda classe que querem subir a qualquer custo”, explicou.


Entretanto, no dia 23 de junho, Hewlett rompeu com os velhos hábitos e não seguiu as diretrizes do Partido Trabalhista. Ignorando o fato de o partido acreditar que a União Europeia seja uma boa opção para a Grã-Bretanha, ele votou a favor da saída do bloco, assim como 64% da população da cidade, ainda que, de acordo com Will Patterson, ativista local do Partido Verde, a cidade “vote até em uma vaca, se ela sair como candidata pelos trabalhistas”.


O voto massivo em favor do “Brexit” – muito superior aos 52% registrados em média no resto do país – representa um tremendo revés para os líderes do Partido Trabalhista em Londres, e também para os políticos locais, que ocupam 65 das 75 cadeiras do conselho distrital e fizeram uma campanha pouco animada em favor da permanência.


O Partido Conservador, cujo líder, o primeiro-ministro David Cameron, também fez campanha em favor da permanência no bloco Europeu, recebeu um verdadeiro pontapé, assim como o presidente Obama e as legiões de pessoas importantes da Grã-Bretanha e de outros países que pediram para que eleitores como Hewlett não fizessem isso.


Mas, apesar dos riscos envolvidos, ele e milhões de outros britânicos – que a despeito da real situação econômica, acreditam fazer parte de uma “classe trabalhadora” empobrecida – queriam justamente uma mudança profunda nos rumos do país. Para eles, essa foi uma medida desesperada com o objetivo de restituir um mundo perdido de trabalhos e comunidades estáveis que eram muito piores na realidade do que na memória coletiva.


A votação é uma evidência clara de como os ressentimentos da classe trabalhadora – impulsionada pela sensação de ter sido ignorada e deixada à míngua em um mundo em rápida transformação – estão gerando uma onda de nacionalismo e outras transformações que visam gerar um novo senso de identidade, colocando de pernas para o ar os pressupostos ideológicos e as velhas relações estabelecidas pelos partidos políticos e outras instituições.


De fato, a perda bem documentada de empregos tradicionais da classe trabalhadora de Wigan e do restante da Grã-Bretanha não foi o suficiente para que ela se desapegasse da ideia de que faz parte de um proletariado que ascendeu socialmente. Uma pesquisa a respeito das atitudes sociais publicada recentemente pelo NatCen Social Research, um grupo de pesquisa britânico, revelou que embora apenas 25 por cento dos britânicos tenham empregos que envolvam trabalhos braçais rotineiros, que são a marca da classe operária tradicional, 60 por cento dos britânicos se veem como pertencentes ao operariado.



Poucas expectativas


Essa desconexão entre os empregos e a classe à qual as pessoas pertencem é um fenômeno que os pesquisadores chamaram de “proletariado da mente”. Ele ajuda a explicar por que, embora apenas uma minoria dos britânicos realmente esteja sujeita à insegurança e à pobreza de trabalhadores como Hewlett, muitos sentem estar passando por uma situação difícil – e se posicionam contra qualquer um que esteja no poder, seja em Bruxelas ou em Londres.


“Eu não acredito que muita coisa vá mudar. Mas temos pelo menos que tentar”, afirmou Hewlett, de 61 anos, sentado ao lado da esposa, que sofre com a doença de Alzheimer, em uma sala abarrotada, com a parede repleta de fotos dos seis filhos e 14 netos do casal. A vida, segundo ele, “foi para a cucuia”, e a culpa é da intromissão estrangeira. “Não gosto que pessoas do outro lado do mundo nos digam o que devemos fazer.”


Hewlett explicou que em apenas três anos, seu salário líquido caiu de mais de US$665 por semana, para apenas US$318. O pior de tudo, segundo ele, é que seu antigo contrato, seguro e em tempo integral, se transformou em um “contrato sem horas definidas”, que permite que seu patrão decida quantas horas ele vai trabalhar e pague de acordo com as necessidades diárias da empresa.


“É quase trabalho escravo”, afirmou Hewlett. Ele reclamou que a chegada de inúmeros trabalhadores prontos para aceitar qualquer negócio, vindos de países pobres e anteriormente comunistas da União Europeia, levou as empresas a não quererem mais oferecer contratos fixos ou mais que o salário mínimo para trabalhos simples.


O número real de imigrantes que vive e trabalha em Wigan é minúsculo, representando apenas 2,9 por cento da cidade, comparado ao total nacional, que chega a 11,5 por cento, segundo a Agência Nacional de Estatísticas. Apenas 1,7 das pessoas que vivem em Wigan nasceram em outros países da União Europeia. A taxa de desemprego da cidade é de apenas 5 por cento, de acordo com a câmara municipal, pouco abaixo da média nacional e cerca da metade to percentual registrado nos países da zona do euro.



‘Esta ilha poderosa’


Os defensores do livre mercado veem a suposta flexibilidade trabalhista, garantida pelos contratos de zero hora e outros mecanismos legais, como uma das principais razões por trás a economia robusta da Grã-Bretanha, em contraste com o que vem acontecendo na Europa continental. Ainda assim, para trabalhadores como Hewlett, que não possuem habilidades especiais e já não estão mais em condições de adquiri-las, essa flexibilidade é uma maldição – e uma das razões pelas quais os britânicos mais pobres e com formação mais precária tenham votado em massa pela saída da União Europeia.


O fato de os burocratas de Bruxelas não terem qualquer poder sobre o mercado de trabalho britânico – os verdadeiros responsáveis por isso são os políticos londrinos que lutavam para manter a competitividade da Grã-Bretanha em meio às pressões da globalização – não foi capaz de impedir a percepção de muitos em Wigan: de que a saída da União Europeia poderia colocar o país em outro rumo, de preferência recuperando a segurança perdida e o senso de pertencimento do passado.


Patterson, o ativista do Partido Verde, se lembra de como lutou em vão durante a campanha do referendo para convencer os eleitores de Wigan de que seus interesses estavam alinhados com os dos “trabalhadores de Stuttgart e Gdansk”, e que é preciso se unir a eles para lutar contra os governos de direita de toda a Europa, que apoiam cada vez mais medidas de austeridade e políticas trabalhistas favoráveis às empresas.


Quando ele argumentou nesse sentido em Wigan, uma mulher se levantou e gritou: “Não estou interessada em Stuttgart. Só estou interessada em Wigan”.





Fonte: Gazeta do Povo / The New York Times, 21 de julho de 2016.

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