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Estados Unidos e o trabalho infantil

 

CTB
 

"Queremos que nossos aliados se unam ao compromisso que contraímos com esses milhões de meninos para
serem adotadas políticas que eliminem o trabalho infantil", disse o chefe da diplomacia americana.


Kerry esgrimiu um argumento com o que sua diplomacia tira freqüentemente as cores a países em desenvolvimento e questiona o sistema produtivo de potências emergentes.

A sociedade americana desconhece a exploração trabalhista que enfrentam os meninos do campo e encontra difícil acreditar que se empregue mão de obra infantil na roça, detalhou Reid Maki, coordenador da organização The Child Trabalho Coalition (CLC).

Por exemplo, os estados da Carolina do Norte, Kentucky, Tennessee e Virginia são responsáveis pela produção de 90 por cento do tabaco do país e, neles, localizam-se grandes fazendas que utilizam adolescentes para cortar as folhas das que sairão os cigarros.

Milhares de criaturas que trabalham na terra de tabaco suportam náuseas e enjôos pelos efeitos da nicotina e oferecem uma imagem não imaginável da primeira potência mundial, que se resiste a renovar as leis de trabalho infantil na agricultura.

O panorama que enfrentam os menores em muitos estados se assemelha aquilo acontecido séculos atrás quando um de cada seis menores participava de trabalhos agrícolas.

Em Califórnia, o estado número um em produção agrícola no país, há uma grande incidência do trabalho dos menores de idade, notadamente numa força trabalhista na qual mais de 70 por cento são imigrantes indocumentados, na sua maioria mexicanos.

Nos últimos anos perante a escassez de mão de obra e com o reforço da perseguição aos imigrantes, a taxa de novos trabalhadores agrícolas chegou a ser zero, e por isso muitos encontraram nas crianças força de trabalho emergente.

Segundo o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos um trabalhador deve completar ao menos 14 anos para fazer trabalhos agrícolas e não se permitem trabalhos arriscados com menos de 18 anos.

Entretanto, essas disposições não se respeitam e é freqüente que menores de idade trabalhem jornadas de 12 a 14 horas diárias, sentados e até são instruídos para caso chegarem estranhos ou autoridades devem deixar de trabalhar para não chamar a atenção.

Trabalhando entre culturas de morango ou caixas de uvas, dezenas de meninos trabalham nos campos de Califórnia, uma abundância de menores que em contraste não se reflete no Programa de Educação Migrante (MEP) que perdeu mais de 20 mil alunos em anos recentes, porque devem trabalhar para ajudar a suas famílias.

Embora a lei federal de normas razoáveis do trabalho (FSLA) proibiu o emprego de mão de obra infantil desde 1938, até hoje os empregadores contratam a menores.

A essa idade, quando virtualmente começam a viver, estão expostos aos pesticidas que causam problemas de crescimento ou déficit de atendimento e os acidentes de trabalho estão à ordem do dia entre eles e se sabe de casos de menores que terem falecido pela exposição a químicos, segundo denúncias de grupos de direitos humanos.

Estatísticas indicam que só em 2009, mais de 15 mil meninos sofreram uma lesão séria enquanto trabalhavam na agricultura; em 2006, outros três mil e 600 ficaram afetados de por vida, 26 por cento deles tinha mais de 10 anos, sem contar que mais de 690 perderam a vida no campo.

Cifra conservadoras assinalam que perto de um milhão de menores de idade trabalham na agricultura americana e fazem uma parte importante da força trabalhista no setor.

A Associação Nacional de Centros Comunitários de Saúde estima que 38 por cento dos trabalhadores agrícolas são mulheres e meninos menores de 14 anos.

Ao respeito estatísticas asseguram que a mortalidade infantil representa perto de 20 por cento da totalidade dos acidentes fatais em estabelecimentos agrícolas.

Especial destaque tem aqueles meninos e meninas que trabalham nas plantações de tabaco, os quais são vulneráveis ao envenenamento por nicotina, especialmente quando manipulam as folhas úmidas.

Segundo a organização Human Rights Watch (HRW) meninos e meninas, às vezes de tão só 12 anos, a maioria de origem latino-americana, trabalham nas plantações de tabaco na Carolina do Norte, Kentucky, Tennessee e Virginia e sofrem de uma intoxicação conhecida como a doença do tabaco verde (GTS, em inglês), ao estar expostos à nicotina.

A maioria são filhos de imigrantes hispânicos e, embora muitos obtiveram a cidadania americana por terem nascido no país, todos carecem de abrigo, não há quase ferramentas para ajudá-los nem programas federais para eles.

Ativistas e defensores dos direitos dos jovens qualificam o trabalho dos menores no país como uma forma de escravidão moderna, na qual é comum que os "meninos jornaleiros" sejam alojados em barracões de chapa ou casas pré-fabricadas, em acampamentos tão precários como os que se vêem em países do terceiro mundo.

É uma forma de escravidão moderna porque não ganham suficiente para viver e, certamente, não economizam nem progridem. Os meninos vão de um lado para outro, sem eleição, trocando de ambiente, opinou uma ativista.

Por outra parte, a taxa de mortalidade por acidente trabalhista no campo é oito vezes mais alta que a média, conforme informa HRW, destacando que os meninos não dispõem do abrigo nem as medidas de segurança adequadas.

Essa organização estima que milhares de menores, em sua maioria filhos de imigrantes latino-americanos, trabalham até 50 e 60 horas semanais só nas plantações de tabaco, sem contar quantos milhares estão noutros trabalhos não menos perigosos.

Face este panorama, soa oco o chamado urgente feito em 2013 pelo Kerry resgatar aos pequenos jornaleiros no mundo, sem antes lançar um olhar para o interno de seu país.



Fonte: Vermelho, 4 de julho de 2016


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