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Mujica rompe com presidente da OEA, ex-chanceler do Uruguai


“Luis:

Sabe que eu sempre te apoiei e te promovi. Sabe que claramente respaldei sua candidatura à OEA. Lamento que os fatos reiteradamente demostrem que eu estava equivocado. Não posso compreender seu silêncio sobre [a situação] Haiti, Guatemala e Assunção [Paraguai], ao mesmo tempo em que publica uma carta resposta a Venezuela.


Entendo que sem dizer, me disse ‘adeus’.


Quando te pedi que não fosse à fronteira convulsionada da Venezuela e Colômbia, não era capricho e muito menos não querer ver a realidade. A minha preocupação não é como nos veem ou entende os meios de comunicação ou os políticos. Não, a linha da preocupação é como incidir algo em favor da grande maioria dos venezuelanos. É a mesma atitude assumida no conflito entre Estados Unidos e Cuba, ou com a paz da Colômbia. O central não é como nos veem, mas sobre ser útil ou não à maioria das pessoas. Penso que em algum momento terá que servir de ponte para que a Venezuela toda possa manejar com solvência sua autodeterminação e não deveríamos nos divorciar desse rumo. Todos sabemos que a Venezuela é uma reserva petroleira para os próximos 300 anos. Ali radica sua riqueza e sua desgraça, porque os Estados Unidos são dependentes de petróleo e seus interesses pressionam e muito. Também isso fez possível a deformação sociológica de viver da renda petroleira e terminar importando até o elementar, o grosso da comida.


A revolução bolivariana não pode escapar com voluntarismo dessa realidade ainda que tenha derramado recursos e reservas em favor dos eternos postergados. Foram muitos anos em favor da igualdade social. Não se conseguiu reverter a dependência do petróleo e das importações de alimentos, e com a queda dos preços, padece hoje um acúmulo de tensões que até turvam a democracia.


A Venezuela precisa de paz interior, quer dizer, convivência em primeiro e deveríamos trabalhar para isso. Precisa não reduzir a ideia de socialismo a estatização e precisa de NEP [Nova Política Econômica] para sua economia e seus desequilíbrios monetários. Isso parece imprescindível para viabilizar distribuição, estabilidade e democracia.


A Venezuela precisa de nós como operários e não como juízes, a pressão exterior só cria paranoia e isso não colabora para com as condições internas desta sociedade.


Repito: a verdadeira solidariedade é contribuir para que os venezuelanos possam se autodeterminar, respeitando suas diferenças, mas isso implica um clima que o possibilite.


É muito difícil hoje, mas qualquer outra alternativa pode ter fins trágicos para a democracia real.


Lamento o rumo pelo qual se meteu e sei que é irreversível, por isso agora formalmente, te digo adeus e me despeço.


Pepe”.



Fonte: Vermelho, 21 de junho de 2016



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