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Os jovens demitidos de Wall Street

Eles tinham estilo, astúcia e dinheiro. Agora estão desempregados ou têm vergonha de dizer que trabalham no mercado financeiro.No começo deste semestre, Steve Ferdman celebrou à maneira de Wall Street a oferta de emprego recebida do Credit Suisse.


Saboreando ostras caras e escuros drinques de rum na mesa de um chique restaurante de Manhattan na companhia dos pais, ele brindou à posição permanente conquistada depois de seis meses de trabalho como consultor, sem receber benefícios.


Uma semana depois, Ferdman, de 28 anos, estava sozinho no mesmo restaurante, pedindo um gim tônica para lamentar a própria demissão, a segunda desde 2008. Contou ao bartender sobre sua infelicidade e a rodada seguinte foi por conta da casa.


"Fiz tudo direito. Fui ao trabalho todos os dias, fiquei lá até tarde e ainda assim levei um soco na cara", disse Ferdman. "Não vejo mais motivo para as pessoas pensarem em trabalhar numa indústria como esta."


Houve época em que ser jovem em Wall Street significava ter tudo: estilo, astúcia e dinheiro demais para gastar com sabedoria. Agora, os trabalhadores da indústria financeira que ainda não completaram 30 estão perdendo dinheiro e distinção.


Três anos depois da crise financeira ter levado as firmas de Wall Street à beira do abismo, os maiores bancos americanos veem-se novamente em uma difícil situação. Conforme caem os lucros, as demissões acabam com milhares de postos de trabalho. Os que continuam empregados observam enquanto sua compensação encolhe e o desmoralizante movimento Ocupe Wall Street transforma em vilã uma indústria antes elogiada.


Boa parte do fardo do mais recente golpe sofrido por Wall Street recaiu sobre os jovens financistas. O número de funcionários de 20 a 34 anos de idade nos bancos de investimento e firmas de corretagem caiu 25% do terceiro trimestre de 2008 para o mesmo período de 2011 - 110 mil empregos a menos em decorrência de demissões, atritos e escolhas voluntárias. Em comparação, o número geral de trabalhadores nessa indústria caiu 17% no mesmo período. Entre os com mais de 55 anos, a queda foi de 11%, segundo análise do New York Times a partir de dados do Bureau de Estatísticas do Trabalho de Nova York.


Os jovens financistas já passaram por frustrações antes. Banqueiros e corretores que correram de olhos arregalados para Wall Street nos prósperos dias da década de 80 foram surpreendidos pela quebra do mercado de ações de 19 de outubro de 1987, dia conhecido como Segunda Feira Negra. Em 2000, foram atingidos pelo colapso das empresas ponto.com e, em seguida, pela recessão.


Mas, para os especialistas, os problemas de hoje vieram para ficar, diferentemente dos declínios anteriores. "Muitos dos empregos que estão sendo cortados agora não devem voltar no futuro", disse Leslie Hild, vice-presidente da firma de recrutamento Right Management. "Para os nervos de quase todo mundo, a situação é uma montanha-russa."


Universidades


Os dramas vividos na indústria também afetaram os planos de estudantes de graduação e pós-graduação das melhores universidades americanas. Na Faculdade de Administração de Harvard, onde 39% dos formandos deste ano foi para o ramo financeiro, tem havido "muito mais ansiedade" em relação à temporada de contratações do ano que vem, de acordo com o professor William A. Sahlman.


"As pessoas costumavam pensar em organizações como Morgan Stanley e Goldman Sachs como apostas para uma carreira garantida", disse o professor. "Essa empresas não vão desaparecer, mas contratarão metade do que contratavam antes."


Várias das maiores empresas não estão recrutando novos analistas para as posições iniciais de suas divisões de investimento neste semestre. Na Universidade da Pensilvânia, cuja Faculdade Wharton é aquilo que mais se assemelha a um centro de formação de jovens financistas para Wall Street, o tradicional workshop de recrutamento do Goldman Sachs foi cancelado.


O cenário é ainda mais sombrio fora do círculo das universidade de elite. Matthew Slotnick, que cursa o último ano de economia na Boston College, disse que enviou seu currículo a mais de cem contatos diferentes em Wall Street e foi convocado para várias entrevistas. Mas não recebeu nenhuma oferta de emprego. Slotnick, que sonhava em trabalhar em um banco de investimento desde que entrou na faculdade, está agora se candidatando a empregos em instituições menores, fora de Nova York. "Dizem que o ambiente de contratações está como em 2007 e 2008", disse. "Ainda não desisti, mas a situação é deprimente."


Os financistas mais velhos também enfrentam problemas. Ian C. Horowitz, 40 anos, ex-pesquisador da Rafferty Capital Markets, foi demitido em junho quando a empresa decidiu terceirizar os serviços de pesquisa. Horowitz recebe hoje US$ 400 por semana sob a forma de benefícios aos desempregados. Tem cortado grama e realizado pequenas tarefas nos arredores de sua vizinhança para sustentar a mulher e os dois filhos.


Horowitz, que passou pelo declínio de 2001, disse que os últimos cortes pareceram diferentes. "Já houve momentos em que as coisas iam mal, mas tínhamos a certeza de que o pêndulo acabaria oscilando na direção contrária", disse. "Agora é diferente. O problema é estrutural, e as regras do jogo mudaram."


Ocupe Wall Street


Graças ao movimento Ocupe Wall Street, a atmosfera social do centro financeiro de Nova York também mudou. Os jovens banqueiros de hoje não se gabam mais de seus empregos. Um funcionário do Goldman Sachs de menos de 30 anos, que falou sob condição de anonimato, disse que não conta mais que trabalha em Wall Street. Diz que é de uma consultoria.


O clima azedou tanto que até os jovens funcionários de Wall Street que ainda têm empregos prestigiados estão pensando em abandonar esse mundo de recompensas. "A atividade perdeu o brilho", disse um ex-analista do Goldman que deixou o setor financeiro este ano. Falando sob condição de anonimato por ter assinado um acordo de confidencialidade com a firma, ele disse que além de perderem alguns dos benefícios financeiros, seus amigos que continuaram nas finanças estavam sofrendo com a inveja dos colegas. "Os novos empregos de status não estão no Goldman Sachs, e sim no Google, na Apple e no Facebook."


Para muitos dos jovens profissionais mais talentosos que acabam em Wall Street, ser passado de mão em mão por uma indústria em turbulência pode corresponder ao primeiro fracasso real de suas vidas. "Ainda estou coçando a cabeça", disse uma ex-funcionária do Nomura, grande banco japonês, que foi demitida em 1.º de outubro. "Estudei nas faculdades certas, conheço as pessoas certas e sou boa naquilo que faço. Mas, quando surge a necessidade de cortar gastos, os gastos são cortados."


A ex-funcionária do Nomura disse ter recentemente encontrado um grupo de manifestantes do Ocupe Wall Street na parte baixa de Manhattan. "Eu e estes sujeitos estamos no mesmo barco", disse ela a respeito dos manifestantes, com os quais diz não concordar totalmente. "Quero apenas trabalhar."


 

Fonte: The New York Times, 05 de dezembro de 2011 (Tradução Jornal O Estado de S. Paulo)

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