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Em declínio, Europa pede socorro à China, mas teme contrapartida

Em mais um sinal dos novos tempos, que confirmam o deslocamento do poder econômico mundial do Ocidente para o Oriente e parecem carregar o germe de uma nova ordem mundial, líderes europeus voltam os olhos para a China na esperança de uma solução para a renitente crise da dívida que abala o velho continente e ameaça a União Europeia e o euro.

O presidente francês, Nicolas Sarkozy informou que pretende conversar por telefone com seu colega chinês Hu Jintao para pedir socorro. A idéia é que a China, assim como outros países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul) apliquem parte de suas reservas no Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, que teve sua capacidade elevada pelos líderes da União Europeia nesta quinta de 440 bilhões para 1 trilhão de euros.

Potência financeira

Pelo visto, o dinheiro à disposição dos governos europeus, quase todos atormentados por altos déficits públicos, parece insuficiente para fazer frente à crise. Já a China dispõe de reservas estimadas em US$ 3,2 trilhões, valor bem superior ao do fundo europeu ampliado. Líderes do país asiático já anunciaram a disposição de ajudar, mas os europeus estão preocupados com as contrapartidas.

O episódio revela a transformação da China, que já é a maior credora dos EUA, numa potência financeira. O dinheiro de Pequim não virá de graça. O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, já tinha adiantado, em setembro, que espera uma contrapartida para a ajuda.

Ele indicou que a China quer ampliar investimentos na Europa, mas, preferencialmente, em empresas, ao invés de adquirir títulos de dívidas públicas de valor duvidoso. Para socorrer a eurozona, o governo comunista quer que a União Europeia conceda rapidamente o status de economia de mercado ao país. Isso dificultaria a aplicação de medidas de defesa comercial, como sobretaxas antidumping, que têm se multiplicado contra produtos chineses baratos. Para Jiabao, a União Europeia deveria acelerar a concessão desse status para a China porque “é assim que a gente se comporta entre amigos”.

Autoridades chinesas asseguraram nesta quinta (27) que "apoiam as medidas ativas da Europa para responder à crise financeira".

Reservas

"Devemos explorar os meios para reforçar a cooperação bilateral sobre a base de um benefício mútuo", afirmou um porta-voz do Ministério de Relações Exteriores. O bloco dos 27 países europeus é o maior parceiro comercial e principal receptor das exportações chinesas, razão pela qual a estabilidade e prosperidade da região interessa diretamente à China.


E do lado europeu a tentação é grande: a China está "sentada" em suas confortáveis reservas de 3,2 trilhões de dólares, investe uma parte crescente de seus ativos em euros e já prometeu apoiar Grécia, Espanha ou Portugal.


Segundo especialistas franceses e alemães, a China possui o equivalente a 500 bilhões de dólares em títulos de dívida pública europeia, mas a maior parte de suas reservas está em dólares, e busca diversificá-las.

O diretor do fundo europeu (Feef), Klaus Regling, chegará na sexta-feira a Pequim antes de seguir para o Japão, outro dos potenciais candidatos a resgatar a Europa. De qualquer forma, ainda há poucos detalhes sobre como a China poderia utilizar esse fundo de emergência para ajudar os europeus.

Preocupação

A União Europeia e as autoridades do Feef ainda finalizam os detalhes de como e quando colocarão em andamento um "veículo" financeiro ligado ao Fundo Monetário Internacional que atrairá "investidores do setor privado, público ou de países emergentes".

Mas alguns líderes europeus, pouco afeitos à humildade, estão preocupados com os riscos tanto financeiros como morais de pedir ajuda a países não europeus. As ofertas de ajuda de Pequim a países como Grécia e Portugal, poucos meses atrás, provocaram resistências e manifestações de protesto contra o “colonialismo chinês”.

"Podemos imaginar que se Pequim resgatar a Zona Euro, o fará sem nenhuma contrapartida?", questionou o candidato socialista à presidência François Hollande. "Seria se colocar em uma situação de fragilidade diante de um país, é necessário estar preparado", disse o deputado francês Michel Sapin.

"Aberração"

Para o deputado europeu Daniel Cohn-Bendit, trata-se de uma "aberração". "Não podemos negociar uma proteção ao meio ambiente com um país e ao mesmo tempo pedir que ele pague sua crise financeira", opinou.

A necessidade, porém, tende a falar mais alto e calar a arrogância imperialista dos líderes europeus. A iniciativa do presidente francês é um claro sinal disto. A decadência da Europa, assim como dos EUA, e o deslocamento do poder econômico para a China são fenômenos objetivos da história, aos quais os líderes europeus, conduzidos pelo pragmatismo, terão que se adaptar, engolindo a própria arrogância.


Fonte: Vermelho, 28 de outubro de 2011

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