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Geração dos 20 anos trabalha cada vez mais e ganha cada vez menos

Cada geração tem seu hino para a jornada da ingenuidade juvenil à realidade adulta, quer se trate de "Old Man", de Neil Young, de "Smells Like Teen Spirit", do Nirvana, ou, mais recentemente, de "22", de Taylor Swift. "Esta noite é a noite em que esquecemos as manchetes", diz a letra. "Parece ser uma daquelas noites em que não vamos dormir."


Infelizmente, os contemporâneos menos afluentes de Swift (que agora já tem 23 anos) não têm a mesma facilidade que ela para deixar de lado seus compromissos matinais. Passar noites em claro, para eles, costuma se relacionar mais ao trabalho que à diversão.

 

"Se não estou no escritório, não largo do BlackBerry", diz Casey McIntyre, 28, que trabalha com divulgação de livros em Nova York. "A sensação é a de que jamais me desligo completamente do trabalho."


McIntyre é apenas mais uma pessoa da casa dos 20 anos --uma população historicamente explorada como mão de obra barata-- a descobrir que jornadas longas de trabalho e salário baixo são características que quase sempre andam juntas, nas profissões criativas.


A recessão não ajudou em nada o ingresso no mercado de trabalho, e centenas de candidatos disputam estágios não remunerados para os quais a expectativa é que estejam disponíveis com seus iPhones o dia inteiro, respondendo os tweets que mencionam suas companhias da manhã à noite.


22-22-22

"Precisamos contratar um 22-22-22", teria dito um executivo de novas mídias, recentemente --ele queria dizer uma pessoa de 22 anos para trabalhar 22 horas por dia ganhando US$ 22 mil ao ano.


O segundo dos "22" talvez seja exagero, mas os dois outros de forma alguma o são. De acordo com um relatório da Pew Research em 2011, o patrimônio líquido para as pessoas de 35 anos ou menos caiu em 68% entre 1984 e 2009, para US$ 3.662.


Para que você não imagine que isso representa simples efeito colateral da desaceleração econômica, para as pessoas com mais de 65 anos a média subiu a US$ 170.484 (em geral devido ao avanço nos valores dos imóveis.) Com isso, o número de jovens dos 25 aos 34 anos que vivem com os pais aumentou em 1,2 milhão em 2011 ante o total de 2007.


Os jovens também têm jornadas de trabalho mais longas. Em 2011, de acordo com o Serviço de Estatísticas do Trabalho, os trabalhadores com emprego de período integral e idade de 20 a 24 anos trabalhavam apenas 2,1 horas semanais a menos que os trabalhadores com mais de 25 anos.


Isso não oferece muito tempo de lazer naquele período supostamente descuidado na vida pessoal. Ou, para citar a aspirante a escritora de 24 anos de idade que serve como personagem central da série "Girls", de Lena Dunham, "minha ocupação é tentar me tornar o que sou".


Um recente post da Dalkey Archive Press, editora de vanguarda em Champaign, Illinois, em busca de estagiários não remunerados para seu escritório em Londres, oferece um bom resumo das exigências extravagantes feitas aos jovens trabalhadores.


A severa lista de causas de "demissão sumária" inclui "chegar atrasado ou sair mais cedo sem autorização prévia", "estar indisponível de noite ou nos finais de semana" ou "deixar de responder a e-mails em prazo útil".


O "Steve Wilkos Show", um programa de TV da NBCUniversal, recentemente postou anúncio no Craigslist para um assistente de produção freelancer para trabalhar "65+ horas semanais" (o anúncio foi retirado posteriormente depois de ter causado comentários indignados no site jimromenesko.com).


"A ideia do posto tradicional de ingresso no mercado de trabalho está desaparecendo", disse Ross Perlin, 29, autor de "Intern Nation: How to Earn Nothing and Learn Little in the Brave New Economy" (O País dos Estagiários: Como Ganhar Nada e Aprender Pouco na Admirável Economia Nova, em tradução livre).


Os cargos iniciais foram substituídos por estágios, ele diz, "mas também por bolsas de pesquisa e posições nebulosas que parecem importantes mas pagam apenas um estipêndio, o que significa ganhos de apenas US$ 15 mil anuais".



DESESPERO JOVEM

No passado posições de tempo parcial, os estágios se tornaram um rito de passagem obrigatório que muitas vezes pode se arrastar por anos.


"Especialmente nas profissões mais prestigiadas --cinema e TV, editoras e mídia--, as empresas estão forçando a barra para descobrir o máximo de trabalho que podem extrair dos jovens pelo mais baixo salário ou estipêndio possível", afirmou Perlin. "E as pessoas estão tão desesperadas que aceitam."


Foi o que Katherine Myers, 27, constatou ao se formar na faculdade em 2008. Depois de meses de busca, ela conseguiu emprego como coordenadora de desenvolvimento em um canal de TV a cabo em Nova York. "Eu estava disposta a encarar qualquer coisa", diz. "Nunca almoçava, chegava antes da hora, ficava até tarde."


Mas sua experiência ainda assim foi mais agradável do que a de dois amigos que trabalharam para uma mesma produtora de cinema, um depois do outro.


"No ano passado, fizemos uma festa surpresa de aniversário para um deles, mas ele não pôde comparecer porque seu chefe o chamou para uma exibição de filme", ela conta. "Passamos um ano quase sem vê-lo. Acordava às cinco da manhã, ficava no escritório até a 1h do dia seguinte, dormia na mesa".


A outra amiga deixou o emprego e se matriculou na pós-graduação em Direito depois de apenas quatro meses.


"Creio que ela considerou que não fizesse sentido", diz Myers. "É preciso ter a sensação de que você está fazendo algo de bom pelo mundo, e em alguns empregos é difícil que isso aconteça. Se você é médico ou advogado, é fácil justificar o esforço. Mas se você trabalha com moda, bem, quem realmente se importa?"


Mas Myers, que agora ocupa cargo mais alto no site CollegeHumor, está decidida a se manter em seu ramo, e o mesmo vale para Cathy Pitoun, 25.


Dois anos atrás, como assistente de produção em Culver City, Califórnia, em uma empresa de edição de trailers de cinema, Pitoun ganhava US$ 10 por hora sem benefícios (ainda que as horas extras fossem pagas com adicional), e tinha plantões rotativos nos finais de semana.


Depois de seis meses, ela foi promovida a um cargo em que "qualquer pisada na bola era causa de demissão", conta, com um aumento de US$ 2 por hora e benefícios. Ela calcula que trabalhasse cerca de 60 horas por semana.


"Havia dias em que eu começava às quatro da manhã, para enviar um anúncio de TV a um cliente no Japão, e depois precisava voltar ao escritório quatro horas mais tarde para trabalhar o resto do dia", conta. "Também havia dias em que eu precisava chegar às 5h para sessões de dublagem com atores europeus, para compensar o fuso horário, e mesmo assim trabalhava até as 21h."


Sua dedicação teve frutos, como a de Myers: agora ela é assistente do presidente-executivo da companhia, ainda que saiba que seu percurso para atingir seus objetivos de longo prazo "vai ser pior antes que melhore".



CONECTADOS

O trabalho de Pitoun certamente seria menos rigoroso na era anterior à Internet e ao smartphone. Se ela desligava o telefone por algumas horas, encontrava suas caixas de entrada inundadas de e-mails, mensagens e ligações perdidas, ao religá-lo.


"Eu tinha de ficar disponível 100% do tempo, mesmo nos finais de semana", diz, "e por isso dedicava os finais de semana a cuidar do meu apartamento, e ficava esperando ligações". Os trabalhos para os quais era chamada podiam ser simples, por exemplo enviar um e-mail, ou complicados como digitalizar 15 horas de filmes.


McIntyre estima que recebe entre 300 e 400 e-mails por dia, e que tenta responder ao menos 80% deles. Como é que ela encontra energia para digitar sem parar, sem mencionar os dias de 16 horas de trabalho que enfrenta quando acompanha escritores em viagens de divulgação?


"Tomo café antes de sair de casa, há um Dunkin' Donuts convenientemente posicionado no metrô, quando saio, e tomo mais um café durante o dia", conta. "E são cafés grandes."


Para complicar ainda mais as coisas, ainda não existe um sistema para quantificar ou definir o trabalho digital. E isso vai bem além do e-mail. "Um tweet é trabalho? Um post no Facebook é trabalho?", pergunta Perlin, o escritor.


Ironicamente, a geração milênio, à qual frequentemente cabe o trabalho de monitorar redes sociais e e-mails de madrugada, talvez subestime o valor desse tipo de trabalho. Seus hábitos de consumo gratuito de cultura na Internet, sugere Perlin, "foram transplantados para o mundo do trabalho, de modo que eles podem se dispor mais a aceitar permutas ou escambos", por exemplo almoços gratuitos. E seu pagamento primário é acumular "capital cultural", não "capital capital".


Nas profissões mais prestigiadas, além disso, especialmente no informal Vale do Silício, muitas empresas tentaram "pôr fim ao pesadelo da homogeneidade dos anos 50", diz Perlin, falando sobre os espaços com mesas de pebolim e outros atrativos em estilo universitário oferecidos para convencer o pessoal a ficar no escritório até tarde e se relacionar com os colegas.


"Mas agora temos algo de mais sinistro", ele diz. "As pessoas estão trabalhando muito mais e são convencidas de que precisam se dedicar totalmente. O ideal das empresas é eliminar a distinção entre trabalho e casa, entre os colegas de trabalho e os amigos pessoais".


Os filhos de pais ocupados, acostumados a agendas cheias desde a pré-escola podem encontrar dificuldades para estipular limites para a vida profissional. Como parte de uma geração que "foi ensinada a trabalhar com amor", Perlin, "somos conduzidos a muitos desses campos e encorajados a destruir a distinção entre vida e trabalho, ao modo dos artistas do passado".



DEDICAÇÃO

"Ninguém consegue um emprego se disser que só quer um emprego", ele diz. "Você precisa, supostamente, acreditar de coração no projeto, e demonstrar o fato ficando até tarde ou respondendo a e-mails às 23h."


Foi esse tipo de dedicação que Lucy Schiller demonstrou ao longo de dois anos em Denver e San Francisco, mas nada do que fez deu certo. Ela se enquadra às categoria de "estagiário serial" definida no livro de Perlin


Enquanto trabalhava no turno das 4h45min às 15h, quatro dias por semana, em um café, por salário mínimo (e o gerente da casa ficava com metade de suas gorjetas), ela fez estágios, quase todos não remunerados, em cinco instituições artísticas e culturais, e tentou levar adiante alguns projetos pessoais.


Essas perspectivas nunca eram lucrativas. Em um site, "havia a possibilidade de receber US$ 3 por artigo, mas não deu certo", ela disse. As 70 horas que ela trabalhava por semana lhe valiam renda de cerca de US$ 500 semanais.


Em seu último dia em um estágio, sua chefe, uma mulher de 75 anos, pediu ajuda para carregar algumas coisas pesadas em casa. Na garagem, ela abriu uma porta da qual emergiu uma luz cintilante.


"Era uma imensa sala repleta de plantas de maconha", conta Schiller. "Ela me pediu que ajudasse a fazer a colheita, virando a noite. Ela fatura US$ 35 mil por safra, e o dinheiro vai para sua conta de aposentadoria."


O pagamento da estagiária: um burrito no café da manhã.


OTIMISMO

Nos seus demais trabalhos, conta Schiller, "eu me dedicava muito e escrevia muito, e tudo isso tem resultado, de certa maneira, mas não resultado imediato".


Seus pais, inicialmente entusiasmados com suas perspectivas, passaram a se preocupar mais e mais com a sucessão de estágios, um ciclo que, teme Schiller, a esteja pintando como "vacilante, ou inviável para trabalho pago".


Em janeiro, ela voltou a morar na casa dos pais em Urbana, Illinois, para economizar e procurar emprego --mas provavelmente não na Dalkey Archive Press.


Perlin diz que alguns estudos apontam que os jovens dos 20 aos 30 anos passam por oito a nove empregos, o que os economistas veem como positivo, mas "eles não consideram o estresse e o desgaste pessoal que isso causa".


Os pais de Myers, igualmente, "me encorajam e reconhecem meu esforço, mas não entendem" sua carreira no mundo do entretenimento. "Eles não acham que eu esteja bem encaminhada", diz. "Acham que trabalhar não faz sentido se você não está ganhando dinheiro."


"É uma questão legítima", ela prossegue. "Dentro de poucos anos, chegarei aos 30, e é difícil aceitar a disparidade entre minha posição no setor e a de outras pessoas que estão se saindo muito bem. Ao levantar a cada manhã, preciso imaginar que um dia serei uma dessas pessoas. Por sorte, sou muito positiva e me iludo facilmente."

 

 

Fonte: Folha de São Paulo, 19 de março de 2013

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