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Geração X, Y, Z... Conceitos é o que não falta



Uma geração, diferentes perfis

Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Mesma geração, vários sonhos: Enrique, Karina, Gabriel e Jessica esperam ter um futuro estável com suas carreiras
Mesma geração, vários sonhos: Enrique, Karina, Gabriel e Jessica esperam ter um futuro estável com suas carreiras


Enquanto os colegas Karine Alves, de 15 anos, Enrique Villendo, Jessica Ouchi e Gabriel Zandoná, de 14, posavam para a sessão de fotos do Gaz+ no intervalo do colégio, não faltaram celulares para registrar o momento. A chance de que essas imagens tenham sido postadas depois no Twitter ou no Facebook são grandes. Afinal, a socialização é uma das características das novas gerações, que estão acostumadas com telefones modernos e o convívio com as redes sociais – algumas, inclusive, desde que nasceram.

São as chamadas Gerações Y e Z, formadas, respectivamente, por jovens nascidos do início dos anos 80 a 1995 e da metade da década de 90 em diante. Mas, apesar de tantos estudos e teorias, será que esses jovens se sentem à vontade com o rótulo? Alguns deles não.

Em um bate-papo feito no Colégio Positivo, os estudantes Karine, Enrique, Jessica e Gabriel discordaram da imagem que se tem das gerações. “Eu não gosto de ser generalizado. Cada um pensa e age da sua forma. Ninguém é igual a ninguém”, argumentou Enrique. Gabriel concorda: “É verdade. O maior acesso e uso da tecnologia acontecem mais entre as pessoas que têm dinheiro. Mas tento imaginar como deve ser para quem nunca teve contato com a internet. Não dá para chamar essas pessoas de Y ou Z”.

Confusões de adolescente

A disposição de pular de emprego em emprego e a vontade de ter o próprio negócio, apontados como sinais típicos das novas gerações, também não parecem fazer a cabeça dos quatro adolescentes, que sonham com a estabilidade depois de formados. Karine quer ser engenheira química e ter uma família, Gabriel deseja trabalhar na área da computação, Enrique sonha em ser piloto de avião e Jessica pensa em ser arquiteta. Para eles, mais importante do que ter uma empresa própria é encontrar uma boa vaga de emprego.

A psicóloga e sócia-diretora da RH Nossa, Marilda Morschel, explica que há duas razões para as contestações desses jovens: a idade e a existência de várias gerações convivendo ao mesmo tempo. “O conceito de gerações existe há bastante tempo. Mas dessa vez vemos três delas convivendo juntas, o que não era comum. Por esse contato de umas com as outras, é normal que haja confusão quanto ao caminho a seguir, ainda mais quando existe uma pressão sobre os jovens, principalmente do mercado de trabalho”, considera a psicóloga.

Entretanto, a preocupação dos jovens com a concorrência para achar um emprego – que já vinha das outras gerações – continua. Entre os quatro adolescentes, por exemplo, não há quem não queira ou já tenha feito um intercâmbio. Além disso, todos se preocupam com os estudos. “Se para a Geração Y a exigência é grande, para a Z será ainda maior, já que existe a preocupação com os estudos e um maior domínio das tecnologias. Mas acredito que a tendência é que as empresas se adaptem para absorver os futuros profissionais”, explica Marilda.

Mundo real

Mas quando o assunto são as gadgets e o mundo digital, os quatro jovens destoam da maioria. Por estudarem em um colégio integral, eles têm menos tempo para ficar no computador. Se têm um tempinho livre, eles preferem se dedicar a hobbies que dispensam as novas tecnologias, como ler, tocar guitarra e jogar vôlei – com exceção de Jessica, que é fã das redes sociais. Afinal, nem todos são hiperconectados como os colegas que usaram os celulares para fotografar a entrevista.

Mais digital e insegura

Embora o conceito de geração Z seja novo e ainda ganhe força, o tema já desperta o interesse de quem está ligado no assunto. O empresário Marcos Calliari, co-autor do livro Código Y – Decifrando a Geração que Está Mudando o País, explica que os jovens na faixa dos 16 anos passaram por experiências diferentes das vividas pela geração anterior, o que deve marcar os futuros adultos.

“Os jovens da geração Z enfrentaram as incertezas da crise econômica de 2008 e foram marcados pelo advento dos apps, tablets e smartphones, com novas possibilidades de customização e mobilidade”, cita o autor, que acredita em mudanças nos processos de aprendizado e trabalho embalados pelas novas tecnologias. “Mas por esse contexto de crise econômica, é de se esperar que os jovens sejam mais inseguros.”

Já a coordenadora da pós-graduação em Marketing da PUCPR, Silvana Hastreiter, que estudou o comportamento dos consumidores em shopping centers, conta que na hora das compras os jovens costumam se preocupar em agradar a si mesmos e aos outros. “Eles compram coisas para eles e para a família. Há uma vontade de agradar os pais, os amigos, de serem aceitos. Além, é claro, de comprar produtos para manter a aparência, que hoje é um sinônimo de status”, acrescenta Silvana.

Para a psicóloga e sócia-diretora da RH Nossa, Marilda Morschel, a maior diferença entre a geração Y e Z deverá ser no uso que farão das novas tecnologias. “A tendência é que os mais jovens sejam mais rápidos e criativos no manuseio delas, já que eles estão mais acostumados do que as outras gerações.”

Perfil
Como se comporta a Geração Z

O período de 15 anos é considerado o tempo suficiente para o surgimento de uma nova geração, devido às rápidas mudanças que acontecem na sociedade. Portanto, desde 1995 o mundo assiste ao nascimento da chamada geração Z.

Formada pelos “nativos digitais”, jovens que têm contato desde criança com a internet e as novas tecnologias, eles têm mais facilidade com as redes sociais e naturalidade para mexer com as gadgets. Segundo o estudo “São Paulo em Foco: Gerações X, Y e Z”, realizado com 600 pessoas de 14 a 51 anos na capital paulista, 100% dos Zs usam redes sociais e 75% têm celulares.

A mesma pesquisa dá conta de que 60% se preocupam com a beleza, conclusão semelhante a estudo do Ibope concluído em 2010, que aponta para um maior consumo de cosméticos e outros produtos, assim como para a prática de esportes.

Entrevista

Co-autor do livro Código Y – Decifrando a geração que está mudando o país, Marcos diz que o período de incertezas do sistema econômico influenciaram a juventude. O Gaz+ conversou com o cara, que explica um pouco mais sobre o conceito de Geração Y. Veja  o bate-papo abaixo, na íntegra:

Gaz+: Embora exista o conceito de Geração Y, nem todas as pessoas que são classificadas como tal se sentem inseridas nela. Há, por exemplo, aquelas que prezam por um emprego estável numa mesma empresa e não têm interesse em empreender. Essas pessoas também podem ser consideradas como Y?

A abordagem geracional é uma ferramenta incrivelmente útil, mas inspira análises cuidadosas. Através dela, busca-se estabelecer o contexto no qual uma geração se desenvolveu, a fim de  traçar características comuns. Por isso, essa metodologia assume certa generalização, assumindo que as influências atingem a todos daquela geração. Entretanto, é claro que as influências alteram comportamentos de modo diferente nos diferentes indivíduos, em maior ou menor grau. Sim, todos aqueles que nasceram em determinada época são sim de uma mesma geração, mas nem por isso se comportam da mesma maneira ou acreditam nas mesmas coisas – e a própria abordagem geracional prevê essas diferenças. Uma ferramenta para detalhar melhor como se dá a influência do contexto nos jovens, é a identificação de diferentes segmentos dentro dessa geração. O trabalho de segmentação da geração, aí sim, permite identificar diferenças entre os jovens e perceber características mais pessoais e que denotem potencial de desenvolvimento. No livro ‘Código Y – decifrando a geração que está mudando o país’, por exemplo, identificamos 6 diferentes grupos dentro da geração Y, incrivelmente diferentes entre si – e, ainda assim, todos representantes inquestionáveis da Geração Y. Um deles era altamente conectado e ligado à tecnologia, outro grupo valorizava muito sustentabilidade e valores socioambientais, outro era bastante ligado em consumo e na ‘pegação’, e assim por diante. Todos os grupos eram claramente influenciados por temas pertinentes à Geração Y, mas os fatores que os influenciavam eram distintos.

Gaz+: A geração Z é forma por pessoas hiperconectadas, conhecidas como “nativas tecnológicas”. Quais são as vantagens e as desvantagens dessa geração?

Os pesquisadores costumam estabelecer novas gerações aproximadamente a cada 15 anos, já que se estima que esse  seja um prazo longo o suficiente para que fatos novos possam gerar novas influências e contextos que alterem o desenvolvimento dos jovens. Assim, o advento de uma nova geração – no caso, a geração Z – já era previsto. Segundo alguns estudos, os primeiros nascidos sobre esse novo rótulo já têm até 16 anos, e já se preparam para entrar no Ensino Superior e, em breve, entrar no mercado de trabalho. Há algumas diferenças importantes entre os nativos da Geração Z e aqueles nascidos na Geração anterior, a Y. Por exemplo, enquanto os jovens da Geração Y experimentaram uma enorme prosperidade econômica mundial na maior parte de seu desenvolvimento, os jovens da Geração Z já enfrentaram as incertezas de uma grande crise, iniciada em 2008 – e, portanto, altamente marcante para eles. Oura diferença diz respeito ao uso da tecnologia. O Facebook, que apresentou crescimento no país a partir de meados da década de 2000, marcou muito mais a Geração Y, que o recebeu e adotou. Para a geração seguinte, o Facebook já era uma realidade desde seu acesso à tecnologia, fazendo com que a ferramenta tivesse menos impacto de sua vida e alterando menos seu comportamento. O advento dos ‘apps’, tão popularizados para tabletes e smartphones, por exemplo, é fato novo dos últimos anos, marcando muito mais os jovens Zs, com novas possibilidades de customização e mobilidade que não fizeram parte tão fortemente da Geração anterior. Cada um desses fatos, por exemplo, marca aspectos de desenvolvimentos diferentes entre os jovens. Assim, é de se esperar que jovens da geração Z sejam menos seguros, considerando o menor otimismo econômico, e possivelmente tenham maior aversão a correr riscos. A mobilidade, para ele, é muito mais presente, o que pode levantar questões importantes sobre modelo de aprendizado e trabalho, quando comparado à gerações anteriores.

Gaz+: No livro, vocês apresentam alguns dados de comportamento e consumo dos jovens da geração Y. Desses números, quais são os mais significativos e que mais se destacam para se compreender melhor essa geração?

Talvez a mais importante descoberta do estudo que se transformou no livro seja o despreparo da sociedade para lidar com os jovens. De maneira geral, as principais instituições sociais estão sofrendo mudanças muito rápidas para se adaptar ao perfil particular dos jovens da Geração Y. Com exceção talvez da família, que se viu obrigada a rapidamente absorver esse ‘novo integrante’, participativo, com voz ativa, seguro e com espaço para se manifestar, todas as demais instituições resistiram o que puderam a esse novo perfil. Relações de hierarquia clara, como as que ocorrem na maioria das religiões (o conceito de ‘dogma’, por exemplo, é inaceitável para os jovens), com a academia (que até hoje utiliza métodos seculares e que em nada tem a ver com o dia-a-dia dos jovens), com as empresas (cujo método de trabalho, baseado em tarefas, horários, isolamento e ordens, não é próximo ao método de trabalho ao que os jovens se acostumaram) e política, sofrem para acomodar  os jovens desafiadores. Entretanto, esse é um problema pontual, que ocorre em função da transição no perfil da sociedade: na medida em que os membros da Geração Y forem assumindo posições de decisão nessas mesmas instituições, é natural que novos valores não sejam mais conflitantes com a sua atuação. Um bom exemplo é o que está acontecendo com as empresas: quando jovens Y assumem posição de empresários, surgem organizações com perfil e políticas completamente diferentes daquelas que compunham o establishment – pense no Google, por exemplo, uma empresa criada por e para membros da Geração Y.

Fonte: Gazeta do Povo, 1 de setembro de 2012 


 

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